Se você tem filhos que não comem bem, é possível que você já tenha se remoído diante daquela criança que bate um pratão de salada regada com azeite e limão no restaurante. Ou tenha desconfiado ao saber que há colegas da escola que devoram tomate-cereja com o mesmo prazer com que comeriam brigadeiros. Antes de dizer que seu filho não gosta de frutas e verduras, pense em como você está contribuindo para formar seu paladar.

De acordo com o pediatra e pesquisador Naylor Alves de Oliveira, membro do Conselho Científico do Departamento Científico de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, a formação das preferências e hábitos alimentares começa ainda na barriga da mãe e se estende até os 2 anos de idade, num período que totaliza mil dias. Se a alimentação nesse período for balanceada, é provável que a criança tenha hábitos saudáveis mesmo quando se deparar com as guloseimas que nossa sociedade vai lhe oferecer. A seguir, ele fornece algumas pistas para famílias interessadas em compreender o paladar infantil.

Gravidez e lactação: A formação dos hábitos alimentares tem início ainda durante a gestação. O líquido amniótico tem seu sabor alterado a partir da alimentação da mãe. O feto vai construindo seu paladar em função dos hábitos da mãe. Ao nascer, as crianças têm uma preferência por sabores adocicados, como é o do leite materno.

 Entre 6 e 24 meses: Nesse momento, quando outros alimentos são introduzidos, é muito importante não oferecer açúcar ou sal em excesso às crianças. Elas ficam muito estimuladas por esses dois sabores, inicialmente pelo doce e, mais adiante, pelo salgado. Segundo o especialista, a chave de uma alimentação saudável na idade adulta é a orientação adequada nos dois primeiros anos de vida.

Pré-escolar: Ao entrar na escola e ter o que Naylor Oliveira chama de despertar social, meninos e meninas aprendem e desaprendem muitas coisas nesse momento. Por isso, é possível que uma criança, que até então aceitava frutas e legumes, passe a fazer careta para esses alimentos. “Eles veem o amiguinho recusando e fazem o mesmo; veem um menino mais velho comendo salgadinho de pacote e querem também”, explica o pediatra, acrescentando que o glutamato de sódio, presente nesse tipo de produto, aguça o paladar: “Aquilo os deixa desesperados querendo mais e mais”. O importante é continuar oferecendo os alimentos saudáveis.

Papel dos pais: Os pais e cuidadores devem garantir uma alimentação balanceada, rica em frutas e vegetais e pobre em açúcar e sal nos dois primeiros anos de vida. “Não há necessidade de dar doces e refrigerantes para uma criança pequena. Depois, quando for maior, não vai se sentir tão estimulada por esse tipo de coisa”. Para incentivar o consumo de hortaliças, a família deve investir na apresentação.

Papel da escola: Guloseimas, refrigerantes e salgadinhos de pacote não devem fazer parte do lanche das crianças.  O colégio deve desestimular o consumo desses produtos pelos alunos.

E se não gostar? Se depois de muitas tentativas, com variadas apresentações, a criança continuar rejeitando um determinado sabor, tudo bem. Ela só não pode rejeitar todos os legumes e verduras: “Se as famílias observarem, há um componente de hereditariedade no paladar.  É comum gostar dos alimentos que os pais gostam”.