O calor intenso leva as crianças a preferirem atividades com água e roupas mais leves. Entretanto, aquelas que estão acima do peso podem ser um pouco resistentes a essa ideia. Como abordar esse assunto com elas? O que deve ser feito nessa situação? É o caso de procurar ajuda de especialistas? Veja o que você precisa saber sobre esse tema na entrevista com Adriana Daquer, terapeuta familiar do Grupo de Obesidade e Transtornos Alimentares (GOTA), do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE), do Instituto de Psiquiatria da UFRJ (IPUB/UFRJ) e que também atende em uma clínica.

OIN – Por que o cuidado emocional com crianças acima do peso é tão importante quanto o cuidado físico?

ADRIANA DAQUERÉ fundamental cuidar da parte emocional desde o início, pois o bullying e a baixa autoestima que ele causa fazem a criança se sentir diferente, incapaz ou menosprezada, deixando sequelas emocionais para o resto da vida. No futuro, se a obesidade não for superada, é comum ocorrerem transtornos alimentares como anorexia e bulimia. Além disso, a pessoa pode se sentir ainda mais retraída e menos adaptada emocionalmente.

OIN – Quando buscar ajuda profissional?

ADRIANA Se a criança está muito retraída, refratária quanto à exposição do corpo, com muito incômodo, usando roupas muito desconfortáveis, para esconder ao máximo a obesidade; se está muito triste, muito irritada, reclamando que ninguém a entende ou que não tem amigos, ou que todos implicam com ela, nesses momentos, pode ser importante a busca de orientação profissional. Para conversar com a criança, para que ela mesma entenda o que está acontecendo e como pode lidar com isso, bem como seus familiares. Inclusive, para que ela possa compreender que a obesidade é uma característica dela, mas que não a define, ela tem 500 outras características. É essencial que pais e familiares também tenham esse entendimento.

Atente-se às orientações da psicóloga Adriana Daquer

Se a criança não quer participar da atividade, como ir à praia ou à piscina:

Ressalte os aspectos positivos: refrescar-se, estar com colegas, divertir-se. Reforce a importância da sua participação. Oriente: se a criança já estiver em tratamento, lembre que, com a perda de peso e os cuidados que estão tendo, ela vai se sentir mais confortável, com mais fôlego, mas que isso não significa que, agora, ela não possa frequentar qualquer ambiente. E não seja agressivo, nem obrigue a criança a fazer algo que não vai deixá-la confortável. Não grite, nem a critique frontalmente. Não enfatize a questão do peso como se fosse uma tragédia. Se ela realmente não quiser participar, ofereça outras alternativas ao ar livre. Cuidado com a “armadilha” de deixá-la brincando sozinha: vigie para que ela não fique afastada de todos o dia inteiro e para que possa participar o máximo possível das atividades com as demais crianças.

Se o problema é a roupa de banho ou trajes mais frescos:

  Escolha roupas adequadas à estação, mas que garantam o conforto da criança. O meio-termo é possível: se a criança recusa a camisa sem manga, ofereça a opção meia manga. Para as meninas, se elas não se sentirem confortáveis de biquíni, sugira um maiô bonito, mas confortável, sempre incentivando a criança a participar das atividades. Nunca critique, explique que ela pode se sentir mal com o calor que roupas muito cobertas podem provocar nessa ocasião. E ao perceber que a criança está retraída, triste ou afastada, pais, mães ou parentes que tenham uma relação próxima com a criança podem chamá-la para conversar em ambiente separado dos demais familiares; coloque-se à disposição, ouça a criança. A conversa deve ser agradável, acolhedora, apontando observações que vão ajudá-la. Críticas e comentários jamais devem ser feitos na frente de outras pessoas, principalmente de outras crianças, para não gerar uma situação de constrangimento ou desconforto. Não faça um interrogatório, nem tente dar lições de moral, o que mais funciona são conversas.

Em casos de bullying:

 – Fique sempre atento, por perto. Em separado, chame atenção daqueles que cometeram o bullying; forneça orientação, explicando que isso não está sendo bom para a criança com quem implicam, que eles podem lidar com a questão de outra maneira: incentivando as características positivas dela, para que participe do grupo. Incentive as ações de integração, compaixão e respeito. Não dê uma bronca simplesmente, oriente com intervenções educativas.