Tania Zagury (*)

Nova “moda” vem fazendo sucesso na relação de pais apaixonados com seus filhos. Não de todos, logicamente; apenas entre os mais abonados financeiramente, e entre aqueles que gostariam de dar tudo e o céu também aos filhos.... Quem jogou a ideia no mercado deve estar realizado - financeiramente falando. Por isso esbarrar em dezenas de pequenas e fofas princesas, belas adormecidas, Rapunzeis e Elzas (Frozen) se tornou lugar comum em shoppings, parquinhos e escolas infantis. Gasta-se pequena fortuna numa simples festinha, porque além de bolo, bola e brigadeiro, hoje tem que ter animador para entreter os pequenos (enquanto seus papais bebericam e conversam em paz); teatrinho, decoração nas paredes, mesas e guardanapos – além, é claro, do aniversariante-personagem-principal, paramentado da cabeça aos pés e também combinando com tudo o mais... Voltando ao nosso tema: sapos vocês não encontrarão nas pracinhas; príncipes e super-heróis, no entanto, lá estarão aos montes, todos felizes e pululantes em suas fantasias - agora concretas. Sem duplo sentido, porque na atualidade consumista sonho e fantasia não se diferenciam mais: o imaginário se materializa nas roupas que os pais compram a cada desenho animado ou filme que a filharada aprova. É assim o que era sonho “vira” realidade nas cabecinhas infantis. Quando pequenos, também sonhávamos ser brancas de neve, príncipes e heróis. Só que, naquela época, nem tão longínqua, era a imaginação que fazia o sonho acontecer. Agora é o dinheiro. A princípio nada muito problemático. Mas o exagero, esse sim, pode estragar tudo e tornar obrigatório ter todas as vestimentas de cada nova cinderela ou homem-aranha que surge no universo infantil. E dessa forma transforma-se em obrigação (e em decorrentes conflitos) o que deveria ser somente brincadeira ocasional. Não há problema algum em deixar seu filho se fantasiar de herói - desde que não se tenha que comprar outra e mais outra depois - e que seja possível dizer com toda calma: “hoje não vamos comprar nada”. Não há problema algum nessa nova “mania” - desde que não se transforme em mania mesmo! É bom que a criança saiba, desde cedo, que num dia se vive o sonho, e noutro se encara a realidade. E nesse sentido é bom ajudar a criança a distinguir vida real e ficção. Normalmente elas o fazem por si; desde que os pais tenham equilíbrio em suas atitudes, e não criem situações que as levem a se tornarem escravas - em vez de princesas. Isso mesmo: escravas da roupa, da compra, da moda... Façamos dos nossos filhos príncipes e reis, sim, mas de suas vidas, do saber, da empatia e do respeito ao outro. Problemas só ocorrerão se os excessos consumistas os sufocarem de tanto “ter” e “querer”, dificultando perceberem onde acaba a ficção e onde começa a realidade. Equilíbrio continua sendo a chave para a saúde mental de adultos e de crianças. Sim, eles podem escolher um ou dois personagens e ganhar capa, espada, tiara, coroa - até a roupa completa. Mas parem por aí com as compras! Não se esqueçam de deixar espaço (bem espaçoso) para a criança fantasiar por si, sem ajuda de tanta concretude. Só assim desenvolverão capacidade inventiva, ao mesmo tempo em que aprendem a diferenciar real e imaginário.

 

(*) Filósofa, mestre em Educação, professora adjunta da UFRJ, autora de “Filhos, Manual de Instruções” entre outras 25 obras.

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