Entrevista com a psicóloga cognitivo-comportamental Adriana Fernandes Capparelli Dáquer.

 Ninguém duvida da importância da alimentação saudável para as crianças. Mas só quem tem que dizer “não” quando o filho quer comer guloseimas, frituras ou se alimentar fora de hora sabe como impor limites pode ser difícil. Para ajudar os pais e responsáveis nessa tarefa, o portal Obesidade Infantil Não conversou com a psicóloga cognitivo-comportamental Adriana Fernandes Capparelli Dáquer, que dá dicas para os adultos dizerem “não”, sem estresse.

 

OIN - Por que é tão difícil dizer não?

ADRIANA DÁQUER- A dificuldade em dizer não ocorre quando não se tem certeza de que determinado comportamento deve ser evitado, ou quando os pais ou responsáveis temem frustrar a criança e, com isso,fazê-la sofrer, ou ainda deixar de ser amado por ela. Neste caso, deixa para o outro genitor ou responsável o papel de mau. Muitas vezes os pais têm dificuldade em dizer não porque costuma dar muito trabalho, pois leva a argumentações em contrário e até a crises de mau humor do filho, que precisam ser mediadas e drenam bastante a energia, às vezes já bastante consumida.

 

OIN - Esse processo de imposição de limites para as crianças é algo gradual, que deve começar desde cedo?

ADRIANA DÁQUER - Sem dúvidas. Quando a criança se habitua a regras e eventuais “nãos”, ela passa a compreender melhor os limites e quando estes se impõem não são novidades, são percebidos como algo natural e que faz parte da vida.

 

OIN - Quais são as principais artimanhas usadas pelas crianças para tentar comer ou beber algo que os pais negaram?

ADRIANA DÁQUER- Elas costumam insistir muito e tentam negociar, “só um pouquinho”, ou o fazem escondido, quando os pais não estão. Uma artimanha bastante usada por elas também é a busca de aliados (avós, por exemplo), que possam convencer aquele que está negando ou até passar por cima deste.

  

OIN - Como impor limites e ajudar na formação de hábitos alimentares saudáveis para a criança sem estresse para pais e filhos?

ADRIANA DÁQUER- A família deve ter hábitos saudáveis de alimentação e sempre oferecer todos os tipos de alimentos (saudáveis) nas refeições, sem criticar ou obrigar a criança a comer aquilo que ela não gosta, mas solicitando que pelo menos prove. A família deve fazer algumas refeições conjuntamente e em lugar próprio para tal, quando não for possível que almoço ou jantar possam ser feitos sempre de forma coletiva. Nestes momentos, todos deverão comer o que foi servido, com raras exceções (o exemplo é fundamental) e o ambiente deve ser tranquilo, prazeroso e sem distratores (TV, celular etc.).

 

OIN – Que outras dicas podem ser dadas aos pais e responsáveis pela criança? 

ADRIANA DÁQUER- O ideal é que as refeições tenham horários constantes e que a criança não fique muito tempo em jejum para não chegar à próxima refeição com muita fome. Não se deve também permitir ou estimular a criança a comer o dia inteiro, de forma que ela perca a capacidade de perceber a diferença entre fome e saciedade. O alimento não deve também ser visto como um prêmio ou consolo, nada (mesmo as gulodices) deve ser proibido totalmente, exceto em casos de alergia ou alguma doença, pois acaba gerando o desejo de comer o que não é permitido. Porém, não se deve ter em casa aqueles alimentos não desejados, evitando a exposição ao “desejo proibido” e o estresse daí advindo.

  

OIN - Os pais têm a obrigação de dizer “não” quando se trata da formação alimentar das crianças? Até que ponto a responsabilidade é deles?

ADRIANA DÁQUER- Sim, os pais devem dizer não aos hábitos alimentares não saudáveis ou satisfatórios, pois isso faz parte da formação saudável do filho. Nos casos em que a criança faz as refeições fora de casa, cabe aos pais zelarem para que os alimentos ofertados estejam de acordo com o que é considerado saudável. Para isso, devem acompanhar o que é oferecido e consumido nas escolas, na casa dos avós (quando essa alimentação é rotineira) e mesmo em casa, pelos cuidadores.

 

OIN - Em termos de alimentação, quando dizer "não" pode gerar situações traumáticas para pais e filhos?

ADRIANA DÁQUER- O “não” gera situações traumáticas apenas quando é dito de modo agressivo ou humilhante. Quando a criança está em um ambiente no qual as outras pessoas (pais, demais crianças etc.) estão comendo algo que só ela está impedida de fazê-lo, isso é inadequado. Em casos em que a criança não pode consumir algum tipo de alimento por intolerância ou doenças, cabe aos cuidadores terem alguma outra opção também saborosa e prover um apoio tranquilo à criança, lembrando que aquele alimento não lhe fará bem neste momento.

 

OIN - Como agir quando a criança faz um escândalo na frente de outras pessoas em resposta a um "não"? O que se pode e o que não se deve fazer nessas situações?

ADRIANA DÁQUER- Não se deve em hipótese alguma ceder ao escândalo da criança, pois isso a ensina que fazer escândalo é uma forma aceitável de conseguir o que deseja. O que é possível fazer nesses casos é tranquilamente, dizer que assim que ela se acalmar poderão conversar sobre sua solicitação e esclarecer o porquê do não. Os pais devem manter sua posição e em caso de incômodo às demais pessoas do ambiente devem se retirar com a criança e, se possível, não voltar, mostrando o que será perdido em função de sua incapacidade de se colocar adequadamente.

 

OIN - Nas famílias em que o "não" acaba ficando a cargo de apenas um dos pais (o pai ou a mãe), o que ocorre? 

ADRIANA DÁQUER- A tarefa de educar os filhos deve ser igualmente de responsabilidade de ambos, pai e mãe, mesmo quando, por circunstâncias de vida, um dos dois tem mais oportunidades de exercer a educação das crianças. É necessário haver sempre um acordo entre os pais e apoio de um à decisão do outro (as divergências devem ser discutidas fora da presença dos filhos), senão sempre haverá brechas a serem exploradas, o que torna o processo de educar muito mais árduo, e a criança ficará sempre em busca de conseguir apoio para burlar a regra da família.

Ter menos convívio com o filho e não querer brigar quando estão juntos, como desculpa para não dizer “não”, é inaceitável, pois esta é a oportunidade de os pais deixarem suas marcas em termos de valores, atenção e cuidado com a criança.