Por Walter Taam Filho* 

A deficiência de ferro é a causa mais comum dentre as anemias de caráter carencial em todos os países, embora saibamos que diversos outros nutrientes e cofatores (cobre, vitamina B2, entre outros) também estejam envolvidos na síntese da hemoglobina. De todos os casos de anemia diagnosticados, cerca de 50% seriam causados por deficiência de ferro. É fundamental entender que a anemia é o último estágio da carência de ferro, que em geral acaba passando despercebida. A anemia por esta causa apresenta-se ainda hoje como o problema nutricional de maior magnitude no mundo, sendo as crianças menores de cinco anos um dos grupos populacionais de maior risco.

A carência acentuada pode prejudicar o desenvolvimento mental e psicomotor, causar aumento de doenças e mortes em mães e crianças, além de queda no desempenho do indivíduo no trabalho e redução da resistência às infecções. Nas crianças, pode ser causa importante de dificuldades de aprendizagem na fase escolar, uma vez que o ferro é fundamental para o desenvolvimento das funções cerebrais.

Apesar da significativa redução de desnutrição na população brasileira nas últimas décadas, não podemos dizer o mesmo em relação à anemia ferropriva. Entre as principais causas apontadas para a deficiência de ferro, estão o esgotamento dos estoques desse mineral após o nascimento, a ingestão diminuída, o aumento das perdas de ferro orgânico (com destaque para as parasitoses especialmente nos maiores de cinco anos), a redução na sua absorção e o aumento da necessidade não atendida, especialmente pelo crescimento acelerado.

Em nosso meio, o uso habitual de leite de vaca integral para bebês de pouca idade também contribui para a anemia, uma vez que já se sabe que seu uso provoca perda de sangue não visível pelas fezes, sendo totalmente desaconselhado seu uso nessa faixa de idade, devendo-se dar preferência às fórmulas infantis. Quando analisamos os fatores considerados como os mais relevantes para o quadro, em especial nos menores de dois anos, se sobressaem a dieta inadequada em ferro e, especialmente, o baixo aproveitamento pelo organismo em função das escolhas alimentares.

Considera-se que as reservas de ferro, do nascimento aos seis meses de idade, quando a criança recebe com exclusividade o leite materno, atendem às necessidades fisiológicas da criança, não necessitando de qualquer forma de complementação e nem de introdução de alimentos sólidos. Isto se deve à alta absorção do ferro no leite humano, compensando a sua baixa concentração. Entretanto, este aproveitamento pode diminuir até 80% quando outros alimentos passam a ser ingeridos pelo bebê. Portanto, a introdução precoce e inadequada de alimentos complementares deve ser considerada como fator de alto risco para o aparecimento da anemia ferropriva. 

A partir dos seis meses, ocorre o esgotamento das reservas de ferro da criança e o leite materno já não consegue suprir sozinho as necessidades de alguns nutrientes, em particular do ferro. A alimentação complementar passa a ter, então, papel predominante no atendimento às necessidades deste nutriente. De modo geral, bebês de 6 a 12 meses não conseguem consumir quantidade suficiente de alimentos ricos em ferro para atender às suas necessidades, principalmente em função dos alimentos usados como fontes de fornecimento de ferro, como vegetais e hortaliças.

 

O ferro presente nas carnes e vísceras possui um aproveitamento bastante elevado, não estando exposto a fatores inibidores, como acontece com o ferro contido nos vegetais - portanto, esses alimentos são consideradas melhores fontes de fornecimento de ferro.

No Brasil, desde 1998, foi implantado o Programa Nacional de Suplementação Medicamentosa de ferro aos grupos de risco (crianças de 6 a 18 meses, ges­tantes e mulheres no pós-parto). O fornecimento profilático de ferro deve ser oferecido ao recém-nascido a termo e com peso adequado para a idade gestacional, dos 6 aos 24 meses de vida, segundo recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria, exceto para as crianças recebendo fórmulas infantis fortificadas com ferro. Para os prematuros e recém-nascidos de baixo peso, a recomendação é iniciar a partir do trigésimo dia, durante dois meses. Após esse período, a recomendação é a mesma que para os demais recém-nascidos.

*Walter Taam Filho é pediatra, membro do Comitê de Nutrologia da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (Soperj) e coordenador do curso de pós-graduação em Nutrologia da Universidade Veiga de Almeida.