O que você anda colocando no seu carrinho de supermercado? O primeiro passo para evitar que crianças e adolescentes consumam calorias vazias, isto é, produtos com alto teor calórico e baixo aporte nutricional, é privilegiar os alimentos frescos ou minimamente processados. Essa escolha pode ser mais difícil, já que os mercados adotam estratégias para que os consumidores levem até o caixa itens supérfluos. Nessa entrevista, a especialista em nutrição clínica Iria Garcia Faria, chefe da Nutrição do Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPMG/UFRJ), dá orientações importantes para quem vai às compras.

 OBESIDADE INFANTIL NÃO: O que a pessoa responsável pelas compras da família deve ter em mente quando vai ao mercado para garantir uma alimentação saudável e evitar a aquisição de produtos que só contenham calorias vazias?

 IRIA GARCIA FARIA: Quem vai às compras deve sempre começar pelo setor de hortifrúti porque são os alimentos mais saudáveis. Desta forma, acaba se animando com as cores e aromas e tende a colocar mais variações no carrinho ainda vazio. É importante evitar ir ao mercado com fome. As prateleiras da entrada são repletas de produtos para consumo imediato. Se você for às compras depois do trabalho, com fome, a tendência é que acabe levando mais  biscoitos, guloseimas e outros supérfluos do que levaria normalmente. Outro hábito que precisa ser incorporado é a leitura dos rótulos dos alimentos industrializados. Eles vêm com letras pequenas e palavras muito técnicas, mas o consumidor deve comparar os produtos e escolher os que contenham maior teor de fibras e vitaminas e menores quantidades de sódio e aditivos. As bebidas de soja são um bom exemplo de produtos que aparentemente são saudáveis. Muitos consumidores acreditam estar comprando um suco de frutas com alto teor de proteínas, mas quando olhamos o rótulo percebemos que as quantidades de proteínas são mínimas e as de açúcar muito grandes.

 

OIN: Médicos e nutricionistas costumam afirmar que a obesidade infantil começa na despensa das casas onde há oferta de produtos altamente processados, ricos em açúcar e gorduras. Está de acordo com essa afirmativa? 

 IRIA: Com certeza! Quando você fala em educação nutricional, o foco é na família. Os pais muitas vezes comem tão errado quanto as crianças, mas não se dão conta disso. A educação nutricional começa de cima para baixo, dos responsáveis e educadores para as crianças. São eles que fazem as compras. Durante as consultas, vemos muitos casos em que os pais e os avós mimam as crianças através da alimentação. Quando a criança se torna obesa, eles querem a cura, mas não se preocupam com a prevenção. Isso vale também para a escola. Se não houver oferta de produtos industrializados nas cantinas, as crianças vão ter que fazer suas escolhas entre os alimentos mais saudáveis.

 

OIN: Nas gôndolas, especialistas em marketing asseguram estratégias para dar visibilidade a produtos supérfluos, inclusive os alimentícios, e deixam aqueles essenciais menos evidentes. Como driblar essas armadilhas?

 IRIA: A lista de compras ajuda. Com ela nas mãos, comece as compras pelo setor de hortifrúti. Sempre passe no caixa os produtos mais saudáveis primeiro, deixando os supérfluos por último. Caso o valor da compra fique muito alto e você precise abrir mão de levar alguma coisa, os alimentos essenciais já estão garantidos.  Outra recomendação, que só pode ser seguida se houver feira ou um hortifrúti perto de casa, é fazer as compras de itens de limpeza, higiene e não perecíveis nos mercados grandes uma vez por mês e deixar para comprar os alimentos frescos semanalmente. Quando você vai aos grandes mercados mais vezes - e muita gente só conta com eles para comprar legumes e verduras -, a chance de acabar levando produtos industrializados é maior.

 

 OIN: Profissionais da economia doméstica sugerem que as crianças não sejam levadas ao mercado justamente porque, como cada vez mais têm poder de decidir as compras da família, acabam pressionando pela compra de guloseimas e outros produtos pouco saudáveis. Por outro lado, nutricionistas recomendam que, desde cedo, as crianças sejam familiarizadas com esse ambiente e ajudem nas compras do mês e da semana. Como equacionar essa questão?

 IRIA: Quem leva a criança ao mercado é o adulto. Ele tem que se educar para educar os filhos em todos os sentidos, inclusive o nutricional. Temos uma geração muito mal educada do ponto de vista nutricional. As crianças vão na onda dos pais e avós, que só querem coisas prontas. Se o adulto fica alegre na seção de verduras, a criança vai se envolver com aquilo. Ela vai conhecer cores, texturas, tamanhos. Ela vai gostar! Acontece que o adulto, já enfeitiçado pelo mercado, vai levar a criança para as seções menos saudáveis. Não por acaso, elas são as mais coloridas e atraentes. Os mercados e a indústria alimentícia se aproveitam da fragilidade do consumidor. Dificilmente você vê uma fruta embalada de forma atraente e lúdica. As maçãs poderiam vir em cestinhas como a da Chapeuzinho Vermelho. Isso vale para o trabalho desenvolvido nas creches e escolas. As crianças precisam ter contato com frutas e legumes.

 

 OIN: Em tempos de inflação mais alta, como podemos garantir que a compra de alimentos frescos ou minimamente processados, mais perecíveis dos que os altamente processados, não pese tanto no bolso?

 IRIA: Valorizando os produtos da safra e as compras em feiras e hortifrútis, que costuma ter preços melhores.  Ao escolher os produtos, é preciso pensar no que será consumido no dia e o que será consumido ao longo da semana, optando por itens mais maduros e outros mais verdes. Além disso, é possível estocar legumes e verduras cozidos. O tomate andou com preço alto. Se encontrar uma promoção, compre o tomate, prepare um molho caseiro e congele. O mesmo vale para as frutas como banana e manga. Corte em pedaços ou amasse e congele. Elas podem ser comidas depois com iogurte e granola, por exemplo. Essa técnica só não funciona com frutas com muita água, como abacaxi e laranja. Já as verduras podem ser cozidas no vapor e, depois de bem escorridas, guardadas na geladeira por dois ou três dias.