O leite materno é o alimento mais completo na natureza e deve ser o único a ser oferecido nos primeiros seis meses de vida do bebê. Um dos seus benefícios é ajudar a prevenir a obesidade infantil. Por isso, falar de amamentação requer atenção redobrada. Ao exibir uma cena de “amamentação cruzada”, sem abordar os riscos possíveis, a novela “O outro lado do paraíso” (Rede Globo) acabou despertando um debate importante: a amamentação saudável deve ser orientada por médicos e outros profissionais de saúde especialistas no assunto. Ou seja, nem tudo que se vê e/ou escuta sobre amamentação é o melhor para mães e bebês. Leia com atenção a entrevista a seguir com a pediatra Elsa Giugliani, presidente do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria, e informe-se sobre as principais contraindicações médicas no aleitamento.

 

Amamentação cruzada – Antes do aparecimento da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids), amamentar bebês de outras mães não era uma prática contraindicada. Na verdade, era bem comum, e muitas crianças sobreviveram graças às amas de leite. Quando, nos anos 1980, descobriu-se que a Aids podia ser transmitida pelo leite materno, aí deixou de ser recomendado. Isso não quer dizer que não se possa receber leite de outras mulheres, mas esse leite precisa ser tratado, pasteurizado em bancos de leite. Todos os bancos de leite brasileiros são bem regulamentados, têm alto padrão de qualidade e os leites são pasteurizados, o que elimina qualquer risco de vírus e doenças. 

Oferecer outros leites – Não pode. “Essa é uma prática que muitos pensam ser inofensiva, mas que traz consequências e pode atrapalhar a amamentação”, diz a doutora Elsa. Até os seis meses de idade, o único alimento da criança deve ser o leite materno. Se ela está ingerindo um leite industrializado, significa que ela está deixando de tomar o leite materno que é muito melhor para a criança, do ponto de vista nutricional e dos fatores de proteção da saúde.

Outra consequência é a criança mamar menos, o que pode levar a menor produção do leite da mulher e até o seu esgotamento. Antes de oferecer outros leites ao bebê, busque orientação médica para conferir se é mesmo necessário. Importante: se a criança “dorme melhor” depois de ingerir o leite industrializado é porque esse alimento é de difícil digestão, o que aumenta o tempo entre as mamadas; sem contar que o organismo da criança não está preparado para receber esse tipo de alimento. 

Acreditar que seu leite é fraco – Não existe leite fraco. Todo leite que a mulher produz é adequado. Pode haver uma variação no volume, mas, muitas vezes, é uma questão de orientação.

Pensar que se a mama é pequena, a quantidade de leite vai ser insuficiente – Não é exatamente por aí. Como o recomendado é amamentar pela livre demanda, ou seja, quando a criança solicitar, independentemente do horário, o organismo vai se adaptando às necessidades da criança. Se a mama é pequena, realmente, pode armazenar menos leite, mas, na prática, isso quer dizer que essa mulher vai acabar amamentando mais vezes. As situações em que as mães não são capazes de produzir todo o leite são muito excepcionais. E só quem pode avaliar se estão presentes são os médicos e outros profissionais de saúde habilitados.

Beber muito líquido para aumentar a produção de leite – Não. Na verdade, a mulher que amamenta sente muita sede e recomendamos sim que elas bebam mais líquido. Mas não há necessidade de forçar a ingestão de líquidos em excesso. Ela deve se conscientizar de que precisa matar sua sede.

Adotar receitas caseiras – Em primeiro lugar, é importante lembrar que, nos primeiros seis meses de vida da criança, não se deve oferecer nada além do leite materno. Nem água, nem chás, nem sucos, nem outros leites. O leite materno tem toda a água suficiente e necessária ao bebê. Quanto às mães, não há nenhuma comprovação científica de que determinados alimentos ou bebidas aumentem a produção do leite. Mas, se for uma comida que não traga danos à saúde da mulher e do bebê e ela acredita que vai fazer bem, a prática pode até trazer benefícios para o lado emocional dela, deixando-a mais tranquila para amamentar. Lembrando que o uso de álcool não é recomendado para a mulher que está amamentando. E nem todo chá é indicado: muitos têm substâncias que excitam o sistema nervoso, como a cafeína, e isso passa pelo leite, deixando a criança agitada. Por isso, a orientação é de que a mulher não consuma muito café, chocolate, chá, chimarrão, bebidas à base de cola etc.