Por Andrea Bacelar*

 Adolescentes necessitam em média de 8,5 a 9,5 horas de sono por noite, entretanto, inúmeros fatores são responsáveis pela privação de sono vivida por esta faixa etária e também pelas consequências da permanência crônica em débito de sono.

O relógio biológico das crianças muda na fase da adolescência, atrasando o horário de ida para cama (por volta das 23h) e ocasionando uma tendência natural em despertar mais tarde pela manhã. Isto ocorre devido à melatonina, hormônio promotor do sono, resultante da glândula pineal, no cérebro, que passa a ser produzido uma hora mais tarde. Consequentemente, isso atrasa toda a curva de funcionamento da melatonina durante a noite, gerando uma necessidade de despertar também mais tarde. Esta fase atrasada do sono contribui para um conflito nas agendas – principalmente pelos horários de entrada muito cedo, adotados pelas escolas de todo mundo. Ou seja, há uma tendência fisiológica para dormir mais tarde que não é acompanhada pela manhã quando o despertador toca, obrigando o adolescente a levantar para cumprir seu horário acadêmico. 

Estudos mostram que nesta fase da vida, durante a semana, há um débito de duas horas de sono a cada 24 horas, que tenta ser compensado nos finais de semana, quando o tempo total passa para dez a 11 horas de sono. Mas também sabemos que hora de sono perdida não é paga dormindo-se mais. O que ocorre é uma tentativa do corpo de equilibrar a produção e excreção dos hormônios que estão a menos ou a mais em função do sono não reparador.

Outros fatores que inibem a produção da melatonina são as luzes azuis dos aparelhos eletrônicos (smartphones, computadores), que ficam permanentemente ligados e fazem parte da vida do adolescente. Parece que precisam estar 24 horas por dia conectados. Pela manhã, a claridade e a própria luz solar também inibem a produção da melatonina estimulando a retina. 

Dormir menos eleva os níveis de hormônios que aumentam a fome. Estes hormônios estão ligados à regulação do apetite: a grelina e a leptina. A leptina é um hormônio, liberado pelos adipócitos ou células gordurosas, que promove informações sobre o estado de energia para áreas do sistema nervoso central. Nas 24 horas, sabe-se que há um aumento da produção noturna. Ela é um anorexígeno; gera sensação de saciedade. Aumenta quando ocorre um consumo calórico alto e diminui quando estamos com níveis calóricos baixos. Privação de sono prolongada resulta na diminuição da concentração da leptina.

Já a grelina é um hormônio produzido no estômago. Em contraste com o efeito anorexígeno da leptina, a grelina estimula o apetite. Há também um peptídeo produzido pelo hipotálamo chamado orexina ou hipocretina que, além de ser responsável pelo estado de alerta, também estimula o apetite e interage diretamente com a leptina. Estas secreções são modificadas quando se fica privado de sono e, por este motivo, altera-se o balanço energético, aumentando a chance do ganho ponderal. Por isso que de uma maneira simplista se diz que dormir pouco engorda. Outro fator do ganho ponderal é o aumento da ingestão calórica que ocorre nas madrugadas, quando o indivíduo fica privado de sono. Este mecanismo acontece pelo estímulo do sistema de recompensa localizado no sistema límbico, gerando a vontade de ingestão dos snack foods, lanches nada nutritivos e extremamente calóricos, cheio de guloseimas.

Quem dorme mal ou quem está privado de sono também produz menos hormônio do crescimento (GH), que é imediatamente secretado quando voltamos a dormir mesmo fora do horário habitual, por exemplo, à tarde. Ele é produzido durante o sono profundo, que, além de ser responsável pelo crescimento de crianças e adolescentes, cuida também da manutenção do vigor de músculos e pele. 

*Andrea Bacelar é neurologista, especializada em medicina do sono.