Crianças acima do peso aos 5 anos têm quatro vezes mais chances de se tornarem adolescentes obesos

Publicada no finalzinho de janeiro na revista científica "The New England Journal of Medicine", uma pesquisa com 7.738 crianças americanas comprovou que o sobrepeso na infância é um fator de risco importante para a obesidade na adolescência e na vida adulta. O estudo da Universidade de Emory, em Atlanta, durou nove anos e concluiu que crianças acima do peso aos 5 anos têm quatro vezes mais chances de se tornarem adolescentes obesos em comparação com aquelas que entram na educação infantil com peso adequado à altura.

No Brasil, o cenário não é muito diferente. O médico João Regis Ivar Carneiro, professor-visitante do Serviço de Diabetes da Uerj e doutor em clínica médica pela UFRJ, lembra que o IBGE mede a variação ponderal desde a década de 70, e, de lá para cá, o excesso de peso avançou em todas as faixas etárias, mas, nos últimos anos, isso vem acontecendo de forma mais acentuada entre as crianças de 5 a 9 anos:

“Acompanhando esses estudos, podemos tirar duas lições: nossas crianças estão ficando mais obesas, e a obesidade na infância é um dos principais fatores de risco para que a doença se estabeleça na adolescência e na idade adulta. Os EUA estão olhando para as crianças porque eles já perderam a batalha contra a obesidade entre adultos”, diz o médico, com pós-doutorado em biologia molecular na Fiocruz.

O especialista alerta de que, na adolescência, a chance de a obesidade se instalar definitivamente é ainda maior: sobe para 15 vezes. E os problemas associados a ela não esperam a idade adulta para se manifestarem. É cada vez mais comum ver adolescentes com diabetes tipo 2, doenças respiratórias e ortopédicas, além de transtornos psicossociais, em função dos quilos a mais que carregam:

“É uma situação complicada porque, ao invés de se exercitarem e mudarem seus hábitos, esses jovens vão se afastando dessas práticas cada vez mais. Recentemente vi uma adolescente de 15 anos que já era hipertensa, diabética e não cabia na carteira escolar”, lamenta, explicando que a urbanização, o acesso à tecnologia e até o aumento da renda e do consumo foram conquistas que criaram, por outro lado, uma série de problemas. “Hoje morre-se mais por excesso do que por falta de comida.”

Para ele, o tratamento da obesidade infantil é um desafio que se impõe às famílias e à sociedade. E passa necessariamente pela educação:

“O Brasil precisa de políticas públicas pra conter a obesidade. Isso inclui oferecer tratamento multidisciplinar às famílias das crianças obesas, já que a criança reproduz comportamentos do ambiente em que está vivendo. Também é preciso criar uma legislação que restrinja a venda de determinados produtos e favoreça o consumo de outros mais saudáveis e a prática de atividade física. A população precisa de educação de uma maneira geral e educação alimentar especificamente. As crianças de baixa renda estão comendo mais, mas não estão comendo melhor”.