O excesso de peso na infância aumenta o risco de a criança ou o adolescente sofrer de doenças cardiovasculares precocemente, como hipertensão, excesso de colesterol no sangue e diabetes tipo 2. Conversamos com a pediatra endocrinologista Isabel Rey Madeira, presidente da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (SOPERJ), para saber como prevenir e tratar esses problemas.

 

 OIN – Crianças e adolescentes acima do peso correm maior risco de doenças cardiovasculares da mesma forma que adultos?

 ISABEL – Estas doenças têm início na infância, mas só se manifestarão na idade adulta. 

 

OIN –  Crianças e adolescentes acima do peso podem apresentar síndrome metabólica (conjunto de doenças associadas à resistência do hormônio insulina, que inclui hipertensão, alteração na glicemia e nas gorduras do sangue)?

 ISABEL A síndrome metabólica só pode ser diagnosticada após os 10 anos de idade. Os critérios não são os mesmos dos adultos, mas sim uma adaptação da International Diabetes Federation para as crianças. Para uma criança de 10 anos ou mais ter o diagnóstico de síndrome metabólica, a circunferência da sua cintura deve estar aumentada e ela apresentar dois dos seguintes critérios: glicemia de jejum alterada ou diabetes; hipertensão arterial; HDL (colesterol bom) baixo; triglicerídeo alto. 

 

OIN – Quais devem ser os exames de rotina em crianças e adolescentes acima do peso?

 ISABEL A criança deve ser levada à consulta ao pediatra e os exames complementares deverão ser solicitados caso a caso. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda que a criança com excesso de peso tenha dosados os lipídios séricos (gorduras no sangue) e a glicemia (concentração de glicose no sangue).  

 

OIN – Crianças e adolescentes com peso adequado devem fazer exames de rotina para dosagem de colesterol e outras gorduras no sangue, diabetes tipo 2, avaliação da pressão arterial? 

 ISABEL – Os exames complementares devem ser solicitados pelo pediatra de acordo com cada caso. A avaliação da pressão arterial faz parte do exame físico na consulta. A SBP recomenda que toda criança tenha dosados os lipídios séricos aos 10 anos de idade. Antes dos 10 anos, apenas em caso de excesso de peso e em outras situações especiais. Solicitação de exame de glicemia de jejum para criança com sobrepeso ou obesidade, história familiar de diabetes tipo 2 (relacionada ao sedentarismo e ao excesso de peso), etnia com maior predisposição para o diabetes tipo 2 (indígena, africana, asiática e hispânica). E em pacientes com sinais ou condições associadas à resistência insulínica: acantose nigricans (manchas escuras e com textura aveludada que aparecem nas dobras da pele), hipertensão, dislipidemia (alteração nas gorduras no sangue), síndrome dos ovários policísticos. Exame de perfil lipídico em pacientes com pais e avós com história de doença cardiovascular precoce (antes do 55 anos), pais com colesterol maior que 240mg/dL, criança com hipertensão, obesidade, entre outras condições que serão analisadas pelo pediatra.

 

OIN – Como deve ser o tratamento de crianças acima do peso com hipertensão, diabetes tipo 2 e colesterol elevado?

 ISABEL – O tratamento é feito pelo pediatra. O diabetes tipo 2, como consequência de obesidade, é raro na criança, mas pode estar presente no adolescente. No caso de o adolescente obeso ter diabetes tipo 2, ele deverá ser tratado pelo pediatra e pelo endocrinologista pediatra. Na hipertensão associada à obesidade – afastadas outras causas de pressão alta e dependendo do grau da doença –, inicia-se o tratamento com dieta saudável, redução do consumo de sal e atividade física. Já na hipertensão mais grave, há a necessidade do uso de medicamento. O diabetes tipo 2 é tratado com medicamento, além de alimentação saudável e atividade física. O tratamento de colesterol elevado na criança obesa, geralmente, requer exclusivamente alimentação saudável e emagrecimento.