Uma em cada três crianças brasileiras está acima do peso. Iniciativas que previnem a obesidade  conscientizam a sociedade para os males dessa doença. Um exemplo é a Super Liga Gastromotiva da Comida, da ONG Gastromotiva, liderada pelo chef David Hertz, para crianças carentes. A Gastromotiva foi o vencedor na categoria nacional do primeiro Prêmio Amil de Combate à Obesidade Infantil. Em entrevista ao portal Obesidade Infantil Não, Hertz diz que é preciso ampliar o apoio às escolas e às famílias no combate à obesidade infantil.

Para incentivar projetos e ações de prevenção ou combate à obesidade, voltados para crianças de 0 a 11 anos, a Amil lançou em 2015 o Prêmio Amil de Combate à Obesidade Infantil. A iniciativa faz parte do movimento Obesidade Infantil NÃO, lançado pela Amil em 2014 para conscientizar a sociedade sobre a epidemia da doença no país, dando suporte a escolas e pais. Hoje, uma em cada três crianças brasileiras está acima do peso, segundo dados do Ministério da Saúde.

Na primeira edição do Prêmio, foram inscritos 70 projetos de estados de todas as regiões, uma prova de que o Brasil está sensível ao problema. Cinco projetos – criteriosamente selecionados por uma comissão formada por profissionais de saúde e especialistas em sustentabilidade e projetos sociais ­– receberam prêmios nas categorias regionais. A iniciativa Super Liga Gastromotiva da Comida, da ONG Gastromotiva, comandada pelo chef David Hertz, além de ser a vencedora da Região Sudeste, também foi consagrada com o Prêmio Nacional, recebendo R$ 50 mil.

Na entrevista a seguir, o chef David Hertz, fundador da Gastromotiva, fala sobre seu trabalho e seus novos projetos.

 

OBESIDADE INFANTIL NÃO: Como é a alimentação das crianças nas comunidades carentes?

DAVID HERTZ: O que sempre vemos nessas comunidades favelas é que as mães saem para trabalhar e deixam as crianças por conta própria, elas é que preparam sua comida. O resultado é um alto índice de autoconsumo de açúcar, de comida industrializada, de salgadinhos, refrigerantes, enlatados, carnes processadas. São comidas com alto teor de sódio e que não saciam, e assim as crianças sempre querem mais. Sem a mãe em casa, não há limite, a criança se alimenta de qualquer jeito. As escolas que atendem a essas crianças, por sua vez, também têm uma limitação na qualidade de seu cardápio.

 

OIN: O Gastromotiva tem algum projeto junto às escolas?

HERTZ: Sim. No município de São Paulo estamos com um projeto-piloto em quatro escolas públicas, que está tendo uma receptividade muito grande, tanto da Secretaria Municipal de Educação quanto das merendeiras, dos alunos e das famílias. Pretendemos expandir para outras escolas, sempre com a participação de todos os envolvidos, com a colaboração das pessoas, e nunca de forma top down, de cima para baixo. Em nossos projetos, investimos em parcerias consistentes.

 

OIN: Qual é o papel das merendeiras nesse projeto?

HERTZ: Para 2016, nosso foco principal são as merendeiras, porque vemos que essas profissionais estão trabalhando ‘no automático’ e queremos promover seu reconhecimento, fazer com que elas sejam vistas como as super-heroínas das cozinhas que vão alimentar nossas crianças para o futuro. Até então, vínhamos dando foco nas mães, agora vamos incluir as merendeiras. Em nossos projetos, já incentivamos as crianças a ensinarem às mães e às merendeiras a prepararem alimentos mais saudáveis, a terem outra relação com a alimentação.

  

OIN: Mudar a alimentação tem um grande impacto para as crianças nas comunidades mais carentes, mas é o suficiente?

HERTZ: Certamente que não. Desde o início de nossos projetos, percebemos que não adianta apenas levar capacitação técnica aos jovens, é preciso levar a transformação, gerar dignidade, pertencimento, senso de participação na sociedade. Porque essas pessoas tiveram pouco acesso à educação, convivem muito com o “não”. Além da capacitação técnica, precisamos praticar o acolhimento, promover o desenvolvimento humano.

 

OIN: Que outros projetos estão preparando para 2016?

HERTZ: Temos muita coisa prevista. Em primeiro lugar, começamos uma parceria com outra organização que vai nos ajudar a medir o impacto de nosso trabalho, com um acompanhamento maior de todos que passam por nossas atividades, para que possamos medir os resultados. Afinal, já contabilizamos cerca de 80 mil pessoas que passaram por nossas atividades ao longo desses anos e em 2016 vamos formar mais mil pessoas. Cada nova turma que se forma impacta em torno de 1,5 mil pessoas. Em 2016, teremos 20 turmas, estamos falando então de 30 mil pessoas impactadas. Em 2015, tivemos 13 turmas, vamos crescer bastante em 2016, com um aumento de 54% no número de turmas. Além disso, temos um grande projeto relacionado aos Jogos Olímpicos, numa parceria importante com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Vamos levar nossas ações de capacitação a seis praças do Rio de Janeiro, com os próprios alunos ensinando alimentação saudável à população. Com a Super Liga Gastromotiva e outras iniciativas, através do lúdico, usando a linguagem da criança, super-heróis, vamos criar novas ações em São Paulo, Rio e Salvador, começando por Curitiba.

 

Saiba quem são os outros vencedores:

A comissão julgadora do Prêmio Amil de Combate à Obesidade Infantil avaliou vários itens para eleger as melhores iniciativas regionais e nacional: a capacidade de o projeto ser aplicado em diferentes localidades do país ou servir de referência para outros agentes; a originalidade e a tecnologia aplicadas; a dedicação dos profissionais envolvidos; a capacidade de o projeto ser autossustentável e alcançar resultados; e o alcance geográfico e em relação ao número de crianças atendidas.

Na Região Nordeste, o projeto vencedor foi  Vida Saudável, do Instituto Abrace, que desde 2011 atua na cidade de Valente (BA), atendendo a 80 crianças. O projeto oferece acompanhamento nutricional para crianças de duas creches da região do semiárido baiano, utilizando atividades lúdicas e teatro com atores e fantoches. Como todos os demais vencedores regionais, ganhou o prêmio de R$ 5 mil.

Na Região Sul, o premiado foi o Programa Nutrir, da instituição de educação e assistência social Bairro da Juventude, de Criciúma (SC), que também foi vice-campeão na categoria nacional. O Nutrir oferece educação nutricional com o suporte de uma equipe multidisciplinar, composta por psicólogo, assistente social e nutricionista, entre outros profissionais. São realizadas oficinas alimentares com as famílias e o Programa promoveu uma readaptação do cardápio da instituição, que atende a centenas de crianças e adolescentes.

No Centro-Oeste, o vencedor foi um projeto de atendimento a famílias que enfrentam o desafio da obesidade infantil, liderado pela professora e psicóloga Maria Alexina, da Universidade de Brasília (UnB). O projeto existe desde 2010 e trabalha o núcleo familiar, proporcionando mudanças estruturais relacionadas com alimentação, comportamento e valores.

No Norte, o projeto premiado foi a Horta Familiar, da Casa da Criança de Manaus (AM). Desde 1948, a instituição oferece atendimento a 320 crianças de 2 a 5 anos, com a assistência de nutricionistas, pediatras, psicólogos, dentistas, educadores sociais, professores de dança e recreadores. A Horta Familiar foi criada para ampliar o contato das crianças com alimentos naturais e estimular os pais a adotarem melhores hábitos também dentro de casa.