A criança acima do peso, mesmo aparentemente saudável, corre mais risco de sofrer doenças cardiovasculares Crédito: Bikeriderlondon

Mesmo com exames normais, crianças acima do peso correm mais risco de doenças

Obesos que defendem seus quilos extras com base em níveis de colesterol, glicose e pressão arterial normais precisam rever seus conceitos. Um estudo de corte publicado na última edição de abril da revista científica “Journal of the American College of Cardiology” concluiu que, mesmo sem comorbidades aparentes, os obesos têm risco aumentado para doenças cardiovasculares. Conduzida pela professora Yoosoo Chang, do Hospital Kangbuk Samsung, em Seul, na Coreia do Sul, a pesquisa incluiu 14.824 adultos entre 30 e 59 anos que não tinham fatores de risco evidentes para doenças cardíacas e identificou mais placas de cálcio nas artérias de quem estava acima do peso do que nos indivíduos magros.

Para o chefe do Serviço de Nutrologia Pediátrica do Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira, da UFRJ, Hélio Fernandes da Rocha, o estudo não é surpresa e, embora seus resultados não possam ser automaticamente transponíveis para outras populações, demonstra que a ideia de obesidade saudável é um mito:

“A obesidade é uma doença inflamatória, o que predispõe a várias outras, como diabetes, hipertensão arterial e até doenças mentais. É preciso chamar a atenção para o fato de que, mesmo isoladamente, a obesidade mantida ao longo dos anos vai causar as doenças das quais é desencadeante.”

Para ele, a manifestação clínica desses agravos associados é apenas questão de tempo.

“Estudos como esse exigem investigações complementares do ponto de vista epidemiológico. Seus resultados não explicam os mecanismos da doença. No entanto, apesar de haver muitas diferenças entre uma população homogênea, como a coreana, e heterogênea, como a americana e a brasileira, o que é comum é que a obesidade vai levar a outros problemas. Talvez numa população inuit, da Groenlândia, que consome muita proteína e gordura para sobreviver ao rigor do frio, leve 50 anos para eles aparecerem; na coreana, 20; e na americana e na brasileira, muito menos em razão do diferente perfil”, afirma, acrescentando que o quadro é especialmente danoso se a obesidade se instala na infância e adolescência.

O médico reitera uma questão levantada pelos autores da pesquisa: a quem interessa cultivar a ideia de que é possível ser obeso e saudável?

“Apenas àqueles que trabalham na indústria de alimentos! É um posicionamento parecido com o adotado pela indústria do cigarro, que apresentava estudos enviesados que não condiziam com o que um enorme cotejo de evidências já havia demonstrado: fumo é fator de risco para câncer. O caso da obesidade é semelhante: por si, ela é uma agressão ao organismo”.