Quanto maior o índice de massa corporal e menor a idade, maiores são as chances de complicações

A obesidade pode roubar preciosos anos de vida. É o que concluiu um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de McGill, no Canadá. Com base nas informações de 3.992 voluntários adultos que participaram da Pesquisa Nacional de Exame e Nutrição daquele país, eles desenvolveram um modelo computacional para calcular a expectativa de vida em pessoas acima do peso. Os resultados foram expressivos: dependendo da faixa etária e do nível de obesidade, a redução da expectativa de vida pode chegar a oito anos.

De acordo com a pesquisa, quanto maior o índice de massa corporal e menor a idade, maiores são as chances de complicações.

“Um dado relevante quanto à prevalência da gordura corporal excessiva na infância refere-se à precocidade com que podem surgir os efeitos à saúde, como complicações  cardiovasculares, pulmonares, ortopédicas e psicológicas. Além disso, já são conhecidas as relações existentes entre obesidade infantil e sua persistência até a vida adulta”, observa a pediatra Bruna de Siqueira Barros, professora de Nutrologia Pediátrica da UFRJ,  explicando por que a obesidade “rouba” tantos anos de vida. “Para a maioria dos indivíduos, adultos e crianças, o excesso de peso é uma combinação de alimentação com alta taxa calórica e qualitativamente deficiente em micronutrientes com inatividade física. Sabemos que esses são dois dos pilares das doenças crônicas não transmissíveis, incluindo diabetes, doenças cardiovasculares e câncer.” Atualmente, essas doenças estão entre as principais causas de mortalidade no país e no mundo.

Para a médica, as famílias de crianças que estão acima do peso não têm a dimensão completa do que a obesidade acarreta às vidas de seus filhos:

“As famílias, no geral, não consideram as crianças obesas como crianças doentes. Isso porque são crianças que parecem saudáveis: brincam, vão à escola e não recebem medicamentos. É um trabalho árduo convencer os pais de que os problemas relacionados à saúde já estão acontecendo, mas ainda não são perceptíveis. Além disso, muitas famílias tratam seus filhos como vítimas, achando injusto o fato de eles não poderem comer guloseimas, fast foods ou beberem refrigerantes, por exemplo. Dessa forma, a adesão ao tratamento não é completa, e o fato de o paciente permanecer obeso torna-se outro gatilho para comer de maneira inadequada e para não realizar atividade física.”

A professora acredita que o resultado do estudo canadense, que corrobora pesquisas anteriores, pode ser usado pela sociedade de uma forma geral para criar e apoiar ações e políticas de controle:

“A obesidade já é um problema de saúde pública, pois é uma condição que assume prevalência crescente na população, gerando custos orçamentários relevantes para tratamento das comorbidades relacionadas. Seria interessante que as autoridades utilizassem essa informação como um impulso para a criação de mais programas de prevenção, que incentivem a alimentação saudável e a prática de atividade física de crianças e adolescentes. Essa informação é importante também para as famílias, particularmente para aquelas que não aderem ao tratamento, por quantificar o prejuízo que a obesidade pode causar. Isso é, torna mais concreto o fato de que a obesidade é nociva à saúde, por mais que os efeitos ainda não estejam perceptíveis em seus filhos”.