Os pais e os professores devem estar atentos a alterações de humor, sobretudo a sinais de irritabilidade

Importantes estudos que acompanham grandes grupos populacionais por longos períodos já constataram a relação entre obesidade e depressão em adultos. Embora essas pesquisas ainda não tenham esclarecido os mecanismos que expliquem a associação entre as duas doenças, reduzir o risco de uma representa diminuir a incidência da outra. Agora, pesquisadores se dedicam a estudar uma faixa etária ainda mais delicada: os adolescentes. As mudanças por que passam nessa etapa da vida podem dificultar o diagnco precoce desse transtorno mental.

Pesquisadores da Universidade de Rutgers, em Camden, nos Estados Unidos, publicaram um estudo na revista científica "International Journal of Obesity" que, apcompanhar 1.500 jovens de 11 a 24 anos por uma década, constatou essa relação especialmente entre meninas. De acordo com o psiquiatra brasileiro José Carlos Appolinario, coordenador e um dos fundadores do Grupo de Obesidade e Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (Gota/Ipub/UFRJ/Iede), o trabalho de Naomi Marmorstein e seus colaboradores observou uma relação de mão dupla:

"Houve casos em que, num primeiro momento, havia obesidade e depois se desenvolveu a depressão. O contrário também ocorreu: inicialmente, depressão e, num segundo momento, obesidade."

Segundo o especialista, há duas hipes para explicar essa relação. A primeira é de ordem biola e estaria relacionada a alterações endnas do eixo do cortisol, causadas pela síndrome metaba, vinculada à obesidade. Outra possibilidade seria a de que as presspsicossociais às quais os obesos estão sujeitos levariam a mudanças de humor em pessoas predispostas e vulneráveis.  Da mesma maneira, o desânimo e a baixa autoestima, associados à depressão, resultariam em pouca atividade social e física, o que contribuiria para o ganho de peso.

"As crianças e os adolescentes obesos sofrem muito bullying. A obesidade é uma das doenças mais estigmatizadas contemporaneamente. Mais até do que o câncer, segundo uma pesquisa recente. Há uma pressão social sobre os obesos que exige deles uma enorme capacidade de adaptação", observa Appolinario, que atua também como professor do Programa de Praduação em Psiquiatria e saude Mental do Ipub/UFRJ. "Às vezes, a personalidade extrovertida ou engraçada que alguns obesos assumem é uma forma de a criança ou o adolescente reagir ao estigma"

Para o médico, as famílias e os educadores ainda não se conscientizaram da gravidade do problema:

"A obesidade é fator de risco para várias doenças, entre elas, a depressão, que é subvalorizada. Urge intervir de modo muito determinado para evitar que os casos se tornem mais complexos."

O tratamento da obesidade e da depressão nessa faixa etária, diz o médico, costuma ser bem efetivo, evitando a cronificação desses problemas. A obesidade deve ser tratada com mudanças de estilo de vida, orientação nutricional e comportamental e medicamentos em certos casos. O tratamento da depressão consiste em psicoterapia, que pode ser associada a terapias medicamentosas.   Realizada de forma adequada, a intervenção é capaz de evitar quadros cíclicos na idade adulta.

"Os pais e os professores devem estar atentos a alterações de humor, sobretudo de irritabilidade. Isso não é coisa da idade, como muitos pensam. Desempenho ruim na escola, dificuldade de interação social, mau humor cro e choro a toda hora são sinais que merecem atenção e a avaliação de um psiquiatra, principalmente em adolescentes com excesso de peso", orienta o professor.