Os índices de obesidade no Brasil são preocupantes. E o mais alarmante é que a obesidade grave na adolescência tem crescido. “Hoje temos adolescentes com o mesmo tipo de diabetes que adultos obesos”, afirma o endocrinologista Mario Kedhi Carra, membro da Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso). Mas o que fazer para prevenir a obesidade grave em crianças e adolescentes? Na entrevista a seguir, o doutor Mario Carra respondeu a essas e outras questões sobre o tema.

 

OIN – A que fatores pais, mães e responsáveis devem ficar atentos para a prevenção da obesidade grave em adolescentes?

MARIO KEDHI CARRA–Se os pais são organizados com a alimentação, oferecendo uma alimentação balanceada, e percebem que a criança está ganhando peso, é preciso investigar. Às vezes, é um problema de fácil solução: alguma mudança no comportamento alimentar, ou pode ser, eventualmente, até outra doença. Basicamente, a desconfiança é visual e, então, a criança deve ser levada ao endocrinologista ou ao pediatra para ser avaliado. Geralmente, a obesidade é progressiva e o adolescente não tem obesidade grave de uma hora para a outra. Por isso, é necessário afastar, descartar os problemas hormonais ou outras doenças que podem causar a obesidade, com a ajuda dos especialistas.

 

OIN – Como é o diagnóstico nesses casos?

KEDHI –Para saber o grau de obesidade existem tabelas próprias da Organização Mundial da Saúde, na qual o médico tem a relação entre a idade da criança e o Índice de Massa Corporal (IMC). Assim, ele vê a faixa em que o adolescente se encontra para dizer se tem obesidade grave. Nem sempre nossa primeira impressão está correta, quando achamos que uma criança ou adolescente estão acima do peso. O mesmo vale para a magreza. Não basta olhar para a pessoa, o médico tem que colocar na tabela e verificar se é sobrepeso, obesidade ou se a criança ou o adolescente estão acima da terceira curva: quando têm obesidade mais grave.

 

OIN – É possível evitar essa condição?

KEDHI – Para o adolescente não ter a obesidade grave, é preciso ensinar a criança a comer e a se comportar do ponto de vista alimentar e da atividade física desde muito pequena. O que vejo é o seguinte: as crianças seguem o que os pais falam e fazem. Costumamos dizer que o melhor educador é o comportamento dos pais. Claro que existem exceções, mas, via de regra, se pais e mães têm hábitos alimentares ruins, a criança também terá. As pessoas têm tomado o caminho mais fácil: abrir o refrigerante em vez de preparar o suco, comprar o hambúrguer pronto em vez de fazer em casa. É possível e desejável agir diferente. Outra possibilidade interessante, que já foi aplicada em uma escola pública aqui no Brasil, por iniciativa do seu corpo docente, foi a seguinte: a merenda escolar ofertada passou a ser mais nutritiva e era explicado para a criança como e por que elas deveriam comer daquela maneira. Como combinar os grupos alimentares, entre outras coisas. Algumas escolas privadas têm feito isso com a ajuda de nutricionistas. O retorno, do ponto de vista da mudança de comportamento alimentar das crianças para melhor, pode ser percebido.

 

OIN – Qual é o tratamento no caso do adolescente diagnosticado com obesidade grave?

KEDHI – A partir dos 12 anos de idade, oriento tratar o adolescente da mesma forma que eu trataria seus pais ou o adulto: explico os benefícios e malefícios de determinados grupos alimentares, converso sobre alimentação de boa qualidade, esclareço que tomar refrigerante ou comer fast-food todo dia não é bom e que existem substitutos igualmente saborosos. Também conto com a colaboração dos pais, para não oferecerem esses alimentos. O tratamento é complexo e multifatorial, envolvendo vários especialistas. Vale lembrar que existem condições próprias da fisiologia de cada um. Cada pessoa tem uma capacidade de queima calórica diferente. Enquanto algumas têm maior facilidade de manter o peso, outras gastam mais calorias. Também é preciso cuidar da autoestima do adolescente, pois se ele achar que seu caso é insolúvel – porque outras pessoas perdem peso mais rapidamente do que ele, por exemplo –, mais difícil será sua reeducação alimentar e seu tratamento.