Em agosto, a revista “Pediatrics” (da Academia Americana de Pediatria) levantou a seguinte questão em um de seus artigos: “Alimentos sem glúten (a proteína dos cereais) para crianças são uma opção mais saudável?” E os autores concluíram que os produtos marcados como sem glúten, voltados para o público infantil, não são nutricionalmente melhores do que os comuns ou regulares. E pediatras alertam que alimentos sem glúten só devem ser oferecidos às crianças em situações especiais e sempre sob a orientação do pediatra e nutricionista.

 

Os autores do artigo analisaram mais de 350 alimentos comprados nas duas maiores redes de supermercado de Calgary (cidade do Canadá) e então compararam a qualidade nutricional entre aqueles marcados como sem glúten e os regulares. De acordo com os pesquisadores, 80% dos produtos sem glúten tinham altos níveis de açúcar; 88% foram considerados como nutricionalmente “pobres” por conterem alto teor de açúcar, sódio e/ou gordura; boa parte deles também apresentavam menos proteína e uma quantidade similar de calorias (açúcar), quando relacionados com regulares.

 

Para entender melhor esses resultados e o que significam, conversamos com a nutricionista Kelly Gonzaga, membro da Comissão de Alimentação Escolar e Infantil do Conselho de Nutricionista da 4ª região/RJ e diretora da Associação de Nutrição do Estado do Rio de Janeiro.

 

OIN – Como avalia o informe da Academia Americana de Pediatria e os resultados da pesquisa?

 

KELLY GONZAGA – Até que se prove o contrário, os alimentos produzidos a partir da retirada do glúten devem ser oferecidos apenas às crianças portadoras das doenças celíacas. Por que isso? Na indústria de alimentos, para que se obtenha resultado semelhante, em termos de textura e sabor, dos alimentos convencionais, em geral, são adicionados substâncias e ingredientes em maior quantidade. No caso dos pães, a gordura; no caso dos biscoitos, além da gordura, o açúcar. É por isso que os alimentos sem glúten têm maior quantidade de substâncias prejudiciais à saúde. E mais, indivíduos que consomem esses alimentos livremente, que não têm restrição ao consumo de glúten, poderão desenvolver outros problemas de saúde. Portanto, se estamos falando de alimentação infantil, o foco deve estar na oferta majoritária de alimentos naturais e variados. Ainda que existam problemas na produção desse tipo de alimento no Brasil, como o uso indiscriminado de veneno pela agroindústria, os produtos in natura são capazes de fornecer nutrientes, como fibras, minerais e vitaminas, fundamentais para o organismo em desenvolvimento das crianças.

 

 

OIN – Existem evidências científicas de que evitar o glúten seja melhor para crianças sem diagnóstico verificado de doença celíaca?

 

KELLY – Até o momento, não há evidências científicas que comprovem qualquer benefício da retirada de alimentos que contenham glúten para crianças não portadoras de doença celíaca. A redução de peso observada não deve ser vinculada unicamente à restrição do glúten e sim à oferta de outros alimentos. Na infância, devemos ter acesso ao maior número de alimentos naturais, mas a vida moderna favorece o consumo de alimentos processados em detrimento dos naturais, e talvez aí esteja a chave da questão. Os alimentos industrializados têm grandes concentrações de açúcar, gorduras e sódio e não têm aquilo que nos conecta à nossa identidade familiar, que nos faz vincular sabor e sentimentos a alguém que preparou e compartilhou um alimento conosco.

 

OIN – Então qual é a orientação às famílias?

 

KELLY – A solução é intercalar o necessário ao compatível à vida. Por exemplo: iniciar o dia com um bom copo de leite com frutas ou, para aqueles que não podem ou preferem não consumir leite, um suco de fruta natural com uma porção de pão ou tubérculo, dependendo da região ou preferência. Nos dois exemplos, encontramos glúten, fibra, cálcio, vitaminas e, sobretudo, uma quantidade de açúcar sob medida. O lanche da escola pode ser uma fruta inteira ou em forma de suco, uma espiga de milho, ou uma fatia de bolo caseiro, ainda que feito no final de semana e congelado aos pedaços. No almoço, um bom prato de arroz, feijão, uma porção de alguma carne de preferência, legumes cozidos variados e folhas. Sobremesa? Fruta in natura ou em forma de doce caseiro. Para o lanche da tarde, suco de outra fruta ou a própria fruta com biscoito sem recheio ou ainda pão recheado com a sobra do doce que foi sobremesa no almoço. No jantar, mais uma vez, arroz ou macarrão, carne, legumes e folhas, de preferência, diferentes daquelas servidas no almoço. Assim, as vantagens serão: a oferta de diferentes nutrientes em detrimento da monotonia de apenas um; a garantia do aporte nutricional de ferro, fibras, vitaminas e minerais e, fundamentalmente, a oportunidade de formação de uma identidade de sabor e afeto que ligará a criança à sua origem, à sua região, ao seu país, aquilo que constitui um selo que só sua família tem; pois, ainda que usemos os mesmos ingredientes no preparo, a forma de fazê-los é só nossa.