A alergia é a reação do nosso sistema imunológico (de defesa) a algo (alérgeno) que ele julga estranho e, portanto, age de forma diferente de quando nos defende de uma infecção, por exemplo. Pois em vez de nos defender, produz uma resposta exagerada de inflamação, quase sempre com prurido (coceiras), que nos causa mais males do que nos defende. Na alergia alimentar, o alérgeno é a proteína de alimentos, que, para a maioria da população, não causa qualquer sintoma. Na intolerância alimentar, a reação não é desencadeada pelo sistema imune. Geralmente, ela ocorre devido à produção insuficiente ou falta de enzimas digestivas. Na entrevista a seguir, o alergologista Fábio Kuschnir, presidente do Comitê de Alergia e Imunologia da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (SOPERJ), explica tudo sobre alergia alimentar.

 

OIN – O que é alergia alimentar?

FÁBIO KUSCHNIR - São reações em que o nosso sistema imunológico responde de forma exagerada e anormal a componentes dos alimentos que chamamos de alérgenos.

 

OIN – Nascemos alérgicos a determinados alimentos?

KUSCHNIR - Não necessariamente. A doença alérgica nos pais e/ou irmãos é um indicador de que a pessoa também possa ser alérgica, mas, em geral, é necessária a associação com fatores ambientais, como, por exemplo, exposição ao alimento.

 

OIN – Então podemos desenvolver a alergia?

KUSCHNIR - Embora a maior parte dos casos ocorra na infância, a alergia alimentar pode se manifestar em qualquer idade, pois dependerá do momento e da frequência com que a pessoa se expõe a um determinado alimento. A estimativa é de que de 6% a 8% das crianças possam ter algum tipo de alergia alimentar. Nos adultos, esta taxa cai para 1% a 2%. Uma das causas prováveis é imaturidade gastrointestinal e imunológica no bebê, especialmente nos dois primeiros anos de vida.

 

OIN – Existem alimentos que oferecem maior risco de alergia?

KUSCHNIR - Em tese, qualquer alimento pode ser alergênico, ou seja, é capaz de provocar reação do sistema imunológico. Entretanto, um pequeno grupo de alimentos responde por cerca de 90% das alergias alimentares. São eles leite de vaca, ovo da galinha, crustáceos, amendoim, castanhas, avelãs, nozes, trigo e soja.

 

OIN – O que faz com que um alimento entre nessa lista de alimentos alergênicos?

KUSCHNIR - A característica principal dos alimentos que estão nessa lista é ter proteína. Os alimentos alergênicos têm em comum uma alta concentração de proteína alergênica. Mesmo depois de cozinhar ou digerir o alimento, essas estruturas de proteína podem manter sua forma, o que aumenta a chance de o sistema imunológico reagir a esta substância “estranha”. Por outro lado, reações alérgicas aos carboidratos (açúcares), como a lactose, são extremamente raras ou inexistentes.

 

OIN – Quanto mais vezes entramos em contato com um determinado alimento, maior chance de nos tornarmos alérgicos a ele?

KUSCHNIR - O tipo de dieta de cada país, região ou cultura é um dos fatores determinantes para alergia alimentar. Assim, a lista de alimentos alergênicos varia de local para local. No Brasil, os principais alimentos envolvidos são o leite de vaca e o ovo de galinha na infância, e crustáceos, como camarão e outros frutos do mar, entre os adultos. Nos Estados Unidos, além destes já citados, amendoim e nozes são importantes alérgenos. No Japão, a alergia ao trigo sarraceno e ao gergelim é comum. Porém, é necessário chamar atenção para o fato de que, com a globalização da culinária, temos assistido ao aparecimento de novos alérgenos alimentares em nosso país como, por exemplo, as castanhas, nozes etc. E contrariando a crença popular que frequentemente aponta o chocolate, a carne de porco e corantes sintéticos como grandes vilões da alergia alimentar, estas substâncias raramente causam reações.

 

OIN – O que é reação cruzada?

KUSCHNIR - Por exemplo, crianças com alergia à proteína do leite de vaca têm maior risco de reagir ao leite de cabra, uma vez que a proteína caseína, presente em ambos os alimentos, são semelhantes. Por outro lado, a semelhança química entre as proteínas do leite de vaca e a da carne bovina é pequena, permitindo que a maioria das pessoas com alergia à proteína do leite de vaca coma carne sem maiores problemas. Um exemplo interessante, e cada vez mais comum no Brasil, é a possibilidade da reação cruzada entre o látex derivado da seringueira e frutas como a banana, abacate, mamão, kiwi e até raízes e tubérculos como o aipim e o inhame.

 

OIN – Quem sofre de alergia respiratória, corre maior risco de ter alergia alimentar?

KUSCHNIR - O aparecimento mais tardio de alergia alimentar, em geral, ocorre em pessoas que já têm algum tipo de alergia respiratória (asma, rinite alérgica) ou dermatológica (dermatite atópica), o que facilitaria a sensibilização a um alimento. As manifestações de alergia alimentar são variáveis de pessoa para pessoa e, mais do que o alimento em si, o mecanismo imunológico envolvido pode ser o maior fator para a gravidade da reação alérgica.

 

OIN – As reações podem ser graves?

KUSCHNIR - A gravidade da reação independe da quantidade do alimento ingerido. Reações graves e fatais podem ocorrer em qualquer idade, mesmo na primeira exposição ao alimento. As reações imediatas são as mais preocupantes e podem variar desde o aparecimento de placas pelo corpo (urticária) ou inchaço de boca e olhos (angioedema) até reações que podem ser fatais como edema de glote (inchaço na garganta, que pode impedir a respiração) e anafilaxia (reação generalizada com sintomas respiratórios) acompanhada de queda da pressão arterial (hipotensão, choque anafilático). Essas reações ocorrem em minutos até duas horas após a pessoa comer o alimento. O padrão de gravidade pode variar conforme a pessoa, mas aqueles com quadro mais grave, em geral, podem correr risco de vida após o consumo, ou mesmo através do simples contato ou inalação do alimento envolvido.

 

OIN – Alergia alimentar desaparece e volta?

KUSCHNIR - Dependerá do tipo de alimento envolvido. Boa parte das crianças com alergia ao leite de vaca e ao ovo de galinha desenvolve tolerância espontaneamente a partir do terceiro ano de vida, e aceitará estes alimentos. A reincidência de alergia a estes alimentos é rara. Uma pequena parcela desse grupo continuará alérgica por muitos anos ou até pela vida toda. Por outro lado, em alguns alimentos, como o amendoim, o camarão e outros crustáceos, o desparecimento da alergia pode demorar, podendo permanecer indefinidamente na maioria dos pacientes.

 

OIN – Consumir doses homeopáticas dos alimentos que causam a reação alérgica cura a alergia?

KUSCHNIR - Ainda não se tem certeza. Em função do risco de consumo acidental, nos últimos anos têm sido publicados relatos de experiências bem-sucedidas para a indução de tolerância oral a alimentos (especialmente leite de vaca e ovo) em pacientes com risco de reações fatais. Atualmente, ainda são considerados métodos experimentais e não estão recomendados.

 

OIN – Existe prevenção para alergias alimentares?

KUSCHNIR - Por enquanto, não. Estratégias como a restrição aos principais alimentos alergênicos da dieta materna na gestação e a amamentação em crianças com alto risco de desenvolver alergia alimentar (como filhos de pais alérgicos) não têm mostrado boas evidências científicas. O uso de fórmulas alimentares de baixo teor alergênico em bebês também não foi capaz de prevenir. Porém,o parto normal, o aleitamento materno e a dieta natural rica em vegetais e frutas e peixes na fase do desmame associam-se a uma menor frequência de alergia alimentar. Já o parto cesáreo, o aleitamento artificial e o uso de antibióticos pelas mães na gestação estão mais relacionados às doenças alérgicas.