Problema costuma começar nas primeiras séries do colégio e causa danos psicossociais

Além dos transtornos à saúde física, a obesidade pode trazer prejuízos psicossociais às crianças. O bullying é um dos mais danosos. Para ajudar as famílias a lidarem com o problema, o site Healthy Children (www.healthychildren.org), da Associação Americana de Pediatria, publicou orientações para os pais repassarem a seus filhos (ver abaixo).

Para a terapeuta cognitivo-comportamental Adriana Dáquer, do Grupo de Obesidade e Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Gota/Ipub/UFRJ), a linha que orienta as dicas é a do enfrentamento por parte da criança e dos pais. “Essa é uma agressão que ocorre e se mantém anonimamente, quando o indivíduo está sozinho e fragilizado. É um ataque covarde. Com a exposição da situação e o envolvimento das famílias e da escola, é mais fácil solucionar a situação e prevenir outras do mesmo tipo”, afirma, ressaltando que quem pratica o bullying não é um vilão e também precisa de atenção: “Tanto a vítima quanto o agressor estão fragilizados e apenas lidam com a questão de modo diferente.”

Segundo ela, o problema costuma começar nas primeiras séries do colégio, quando as crianças de 7, 8 anos passam a ter mais autonomia. Ele se intensifica na adolescência, período em que a insegurança é nítida e generalizada. “A dominação do outro é uma forma de mostrar algum poder e tirar o foco de suas próprias ‘fraquezas’, ressaltando as do outro”, observa a especialista, enfatizando a necessidade de se fortalecer a autoestima das crianças. “Se a criança mostrar força e não se intimidar, a tendência é que se livre do agressor, que vai buscar um outro mais ‘fraco’. Esse é um jogo de medição de forças. O que deve ser feito é fortalecer cada criança, individualmente, para que todas estejam em condições de enfrentar o ‘agressor’. Assim, a ideia de que outro colega será procurado não se concretizará na prática, já que ele também poderá enfrentar a situação. O exemplo de que o enfrentamento da situação leva ao sucesso encoraja os demais a também se posicionarem e não se tornarem vítimas. Na medida em que a autoestima dos indivíduos esteja fortalecida, o próprio agressor não terá mais necessidade de se impor para se afirmar.”

Na visão de Adriana, família e escola devem atuar em conjunto para que essas ocorrências tenham cada vez menos oportunidade de acontecer.

Os pais e a escola devem ser capazes de ouvir as queixas de desconforto da criança e ajudá-la a se posicionar desde o início. Elas não podem tratar seu incômodo como algo normal. Isso não significa aumentar o problema e fazer uma batalha por tudo. É preciso ajudar e orientar a criança a compreender seus sentimentos e a lidar com eles e com o ambiente à sua volta de forma saudável. “É também muito importante estimular o respeito às diferenças e a cooperação entre os alunos no ambiente escolar em geral. As ocorrências de abuso ou desrespeito, mesmo que menos graves, não devem ser toleradas, de forma a não estimular sua naturalização até a perda de controle”, completa.

A situação se agrava bastante quando as humilhações partem da própria família. “Aquele que deveria ser seu porto seguro e o lugar onde a criança encontraria forças para se constituir um indivíduo pleno não oferece condições de o sujeito constituir seu Eu de forma sólida e segura. Se a família diz que ele não é bom o suficiente, como acreditar que é de fato?”, pondera a terapeuta.

 

Orientações que as famílias devem passar para as crianças que sofrem bullying por causa da obesidade – Tradução do site Healthy Children, da Associação Americana de Pediatria

1. Conte para um adulto.

2. Ande em grupo.

3. Na medida do possível, tente não reagir às provocações. Se o valentão da escola vê que você se incomoda, inclusive começa a chorar, é provável que o bullying piore. Oriente seu filho para que mantenha a postura e se retire do local.

4. Se a intimidação continuar, seu filho pode, quando se sentir seguro, tentar ser firme e fazer frente a seu algoz. Em alguns casos, uma afirmação firme neutralizará o ataque. Pode ser algo como: “Pare de me incomodar!”. O agressor poderá reagir procurando uma “presa mais fácil”, que pareça mais vulnerável aos ataques verbais.

5. Informe aos professores de seu filho sobre o bullying a que ele está sendo submetido. É possível que o professor possa intervir para pôr fim à situação. Se ela continuar, peça que a direção intervenha. É possível que a criança sinta vergonha de ter de recorrer à direção, mas você não pode permitir que ela continue sendo maltratada. Atualmente, muitas escolas têm políticas contra as intimidações. Geralmente, é melhor deixar que o professor e a direção lidem com a situação do que você tentar conversar com o agressor ou com a família dele.

6. Convença seu filho de tentar criar vínculos mais fortes com os amigos que têm na escola. Se estiver em grupo, é menos provável que o escolham para ser maltratado.

7. Procure uma atividade fora da escola de que seu filho com sobrepeso possa participar e possa formar um novo grupo de amigos que talvez estejam menos inclinados a praticar bullying. Inscreva-o numa aula de karatê ou num grupo de escoteiros.

8. Passe mais tempo com seu filho e trate-o como uma pessoa importante. Ajude a manter a autoestima de seu filho, demonstrando respeito e aceitação. Transmita a mensagem: “Eu acredito em você!”.