Crianças e adolescentes acima do peso correm risco de sofrer de doenças graves

Apresentar taxas normais de colesterol, triglicerídeos e glicose costuma ser motivo para alguns obesos afirmarem que, apesar dos muitos quilos extras, eles mantêm a saúde em dia. Mas um estudo, porém, desfaz a crença de que é possível ser obeso e saudável ao mesmo tempo. Segundo pesquisadores da London College University, as alterações nos exames — e no bem-estar desses indivíduos — é só uma questão de tempo.

O estudo, publicado no “Journal of the American College of Cardiology”, acompanhou 2.521 homens e mulheres, de 39 a 62 anos, durante duas décadas e sugere que a ideia de obesidade saudável é um mito, já que seus resultados apontam para comprometimento da saúde com o passar do tempo. Ao iniciar a pesquisa, cerca de um terço dos participantes obesos não apresentava fatores de risco para outras doenças crônicas não transmissíveis, como problemas cardiovasculares. Dez anos depois, no entanto, o quadro já não era favorável para 40% desse grupo. Ao fim do acompanhamento, passada mais uma década, 51% foram classificados como não saudáveis.

“Trabalhos como este reforçam o conceito de obesidade como doença crônica. Se não tratada, pode levar a graves prejuízos na saúde, como o desenvolvimento de diabetes, hipertensão arterial, doença renal, dislipidemias (alterações das gorduras no sangue) e câncer”, destaca a médica Monica Moretzsohn, presidente do Comitê de Nutrologia da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (Soperj).

Para a pediatra, a ideia de obesidade saudável, que oferece um aparente consolo à população obesa, que sofre pressões e cobranças na sociedade contemporânea, precisa ser desconstruída:

“Sabe-se que filhos de pais obesos têm 80% de possibilidade de se tornarem obesos. Se apenas um genitor é obeso, esse risco cai para 50%. Se pai e mãe apresentam peso adequado, ele é de apenas 7%. Portanto, a ideia de obesidade saudável deve ser combatida. Os grupos de risco devem ser identificados, e medidas preventivas no sentido de deter o avanço dessa grande epidemia, instituídas.”

Embora a pesquisa tenha acompanhado adultos, Monica Moretzsohn enfatiza ainda a importância de se atuar junto a crianças e adolescentes:

“Adolescentes obesos têm uma probabilidade 70% maior de permanecer obesos na vida adulta, contribuindo para o aumento da prevalência das doenças cardiovasculares, que são responsáveis por uma em cada três mortes em todo o mundo. As dislipidemias são consideradas um dos fatores mais importantes no desenvolvimento dessas doenças, e estudos comprovam que a formação de placas de ateromas (placas de gordura que aderem às paredes dos vasos sanguíneos) tem início na infância. O aumento na incidência dessas doenças na faixa etária pediátrica está contribuindo para uma geração com menor expectativa de vida que a de seus pais”.