Por Gladys Mariani Caussin*

Médica diz que o melhor é prevenir o ganho de peso na infância

Com a epidemia de obesidade avançando em todo o mundo, um tratamento drástico pode evitar que o excesso de peso prejudique ainda mais a saúde de um jovem: a cirurgia bariátrica. A intervenção, que, como qualquer outro procedimento cirúrgico, envolve riscos, é oferecida pelo Sistema Único de Saúde a adolescentes entre 16 e 18 anos. Na rede particular, porém, casos excepcionais já registram cirurgias em pacientes ainda mais novos, de 14, 15 anos.

Para a cirurgiã pediátrica Gladys Mariani Caussin, do Hospital Federal da Lagoa, a cirurgia é a última alternativa para um adolescente que não consegue emagrecer com dieta, exercício físico e medicamento: “O foco tem de ser na prevenção. O ideal é que um adolescente não chegue a esse ponto”, enfatiza. Mas há casos em que ela pode ser realmente necessária: “A cirurgia tem um papel relevante quando o tratamento clínico não consegue reverter a obesidade.”

A cirurgiã explica por que é tão importante cuidar dos hábitos infantis: “As células adiposas são desenvolvidas na infância. A quantidade que teremos em nosso organismo durante toda a vida é definida nessa fase. Depois, elas só aumentam ou diminuem de tamanho. Por isso, é tão difícil para o adolescente que foi uma criança obesa perder peso. A tendência é que, com o passar do tempo, isso seja cada vez mais improvável, e os danos à saúde, maiores. Nesses casos, a cirurgia tem bom resultado.”

A médica esclarece que as indicações são as mesmas dos adultos: índice de massa corporal (IMC) igual ou maior que 40, ou igual ou maior do que 35 com pelo menos uma comorbidade associada (diabetes, hipertensão arterial, insuficiência renal, doenças cardiovasculares). Um desafio no tratamento dessa faixa etária é a menor autonomia que os adolescentes têm. Isso significa que toda a família deve ser envolvida: “Um adolescente, geralmente, vive com os pais. São eles que fazem as compras e ditam o estilo de vida. Por isso, é fundamental que eles mudem os hábitos da casa e deem bom exemplo.”

Para Gladys Caussin, um dos efeitos positivos da cirurgia é psicológico: “Um estudo recente com cerca de 30 adolescentes obesos que passaram pela cirurgia mostrou, a partir de avaliações psicológicas pré e pós-operatórias, melhora na socialização e diminuição da depressão entre esses jovens cuja autoestima está sempre em xeque”.

Ela reforça que as mudanças no estilo de vida devem ser um compromisso desses jovens e suas famílias: “A cirurgia bariátrica é relativamente recente, principalmente nessa faixa etária. Ainda não há estudos de longo prazo que mostrem como o organismo se comporta 40 anos depois. Sem hábitos saudáveis e uma mudança psicológica em relação ao próprio bem-estar, corremos o risco de resolver um problema imediato sem evitar outros problemas no futuro, como novo ganho de peso ou doenças relacionadas ao sedentarismo e aos maus hábitos alimentares”.