Entrevista com a pesquisadoraAndrea Ramalho, da UFRJ

 

O problema da fome oculta atinge um quarto da população mundial e pode ser mascarado pelo excesso de peso e pela obesidade. Nesta entrevista, a pesquisadora da área de nutrição Andrea Ramalho, mestre e doutora pela Fundação Oswaldo Cruz e coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Micronutrientes (NPqM) do Instituto de Nutrição da Universidade Federal do Rio de Janeiro, chama a atenção para o problema e destaca que, no Brasil, ele se manifesta também  em camadas fora dos cinturões tradicionais de miséria. Para ela, redução da fome oculta deve ser um compromisso ético das próximas gerações. 

 

OBESIDADE INFANTIL NÃO: O que é fome oculta?

ANDREA RAMALHO: A fome oculta é a carência não explícita de um ou mais micronutrientes no corpo, em que há alterações mínimas não perceptíveis no exame clínico.  Ela é consequência da falta ou do pouco consumo de micronutrientes. É o estágio anterior ao surgimento dos sinais de carência detectáveis e não está necessariamente associada a doenças. Apesar da ausência dos sinais de carência, as alterações já trazem consequências importantes para o organismo.

 

OIN: Quais são os sintomas? Como é diagnosticada a fome oculta?

ANDREA RAMALHO: Por não apresentar sinais clínicos de carência, a fome oculta começa de forma imperceptível e silenciosa. Porém, mesmo que não evolua para a deficiência grave, já causa prejuízos à saúde.  A carência de micronutrientes exerce um efeito direto no crescimento e desenvolvimento físico e mental. Qualquer carência de micronutrientes tem múltiplos efeitos danosos, já que o organismo necessita deles para manter seu equilíbrio e integridade. O diagnóstico é feito por meio de história clínica nutricional e exame de sangue.

 

OIN: Qual é a relação entre fome oculta e obesidade na infância e adolescência?

Andrea Ramalho: Estudos mostram que a suplementação com vitamina A reduz a gordura corporal e parece conferir alguma resistência à obesidade em dietas ricas em gorduras. Pesquisas indicam menores concentrações de vitamina A em adolescentes e adultos com obesidade, quando comparados a indivíduos com peso adequado. Demostram ainda que, quanto maior o índice de massa corporal (IMC), menores são as concentrações de vitamina A, e que a deficiência de vitamina A pode contribuir para o aumento da obesidade. Estudos sugerem que a nutrição inadequada na gestação e/ou lactação repercute no aumento de peso corporal.

 

OIN: A Organização Mundial de Saúde estima que um quarto da população mundial seja afetada pela fome oculta. Há estimativas sobre o Brasil?

ANDREA RAMALHO: As três maiores deficiências de micronutrientes são as de iodo, ferro e vitamina A. Entre essas, a carência de iodo é a que apresenta o melhor controle no país, visto que a adição de iodo ao sal é determinada em lei. Cerca de 90% das famílias brasileiras usam sal iodado. A anemia por deficiência de ferro é comum e mundialmente disseminada. No Brasil, atinge cerca de 30% a 60% das crianças, principal grupo afetado juntamente com as gestantes e lactantes. Estima-se que 25% estejam enquadradas como portadores de anemia grave. A deficiência de vitamina A eleva as taxas de mortalidade em pré-escolares, intensificando a gravidade e as complicações de doenças infecciosas, aumentando também a chance de complicações na gestação e a mortalidade materna no período pós-parto. No Brasil, entre 30% a 50% de crianças com menos de 5 anos sofrem de algum grau de deficiência de vitamina A. Além dessas três, algumas outras deficiências de micronutrientes já atingiram nível de problema de saúde pública em várias partes do mundo, incluindo o Brasil. Merecem destaque as deficiências de vitamina D e zinco.

  

OIN: Como é a prevenção e o tratamento, sobretudo entre crianças e adolescentes?

ANDREA RAMALHO: Para diminuir o impacto da carência de micronutrientes na saúde dos indivíduos, passos importantes vêm sendo dados, como o programa de iodação do sal, a distribuição de doses maciças de vitamina A por ocasião das campanhas de vacinação e logo após o parto e a portaria que determina aos fabricantes de farinhas de trigo e de milho o acréscimo de ácido fólico e ferro em seus produtos. Entretanto, essas ações devem ser otimizadas.

  

OIN: Você é autora do livro "Fome oculta" (Editora Atheneu). Como tem sido a repercussão do trabalho entre médicos e nutricionistas? Na sua opinião, este é um problema devidamente valorizado pelos profissionais de saúde? 

ANDREA RAMALHO: A suplementação e a fortificação de alimentos no combate à deficiência de micronutrientes como um compromisso político é uma história de sucesso em diferentes países desenvolvidos e em desenvolvimento, o que demonstra a importância das parcerias entre o setor privado e público no estabelecimento de metas para a saúde pública. Essas medidas, somadas à promoção de mudança de hábitos alimentares por meio da educação nutricional, devem ser encorajadas por serem ações que se complementam. O combate à fome oculta não só tem apresentado resultados tímidos diante da grandeza do problema, como não tem conseguido impedir que o consumo de micronutrientes atinja regiões consideradas fora do eixo tradicional da miséria no Brasil. Calcula-se que o custo de não intervir adequadamente para superar as carências específicas é muito maior do que o custo de programas de intervenção. Mesmo assim, não é raro que os setores envolvidos na busca de uma solução — a universidade, os governos, a indústria, a mídia e a população — falem linguagens diferentes. Precisamos, então, de interfaces entre esses setores para permitir que o conhecimento científico se traduza em ações e programas de intervenção nutricional de alcance social.