Estudos recentes comprovam: crianças que dormem mal tendem a se alimentar de forma errada e a comer além do necessário, um hábito que contribui para o excesso de peso, que, por sua vez, é fator de risco para o sono pouco reparador. Um dos motivos é que crianças e adolescentes obesos tendem a roncar e sofrer de síndrome de apneia obstrutiva do sono (SAOS), as interrupções breves e repetidas da respiração ao dormir, problema que, além de cansaço, irritação e sonolência, prejudica o desenvolvimento e o aprendizado, e deixa o organismo vulnerável a doenças cardiovasculares, como hipertensão.

O pneumologista Clemax Couto Santa, professor associado da UFRJ e especialista em saude materno-infantil, confirma que a obesidade é uma causa de SAOS, porém lembra que a síndrome tem outros gatilhos, como dificuldade respiratória nasal (por aumento de amídalas e adenoides; rinites graves), asma, síndrome de Down e doenças neurológicas.

"Há certas diferenças entre os sintomas de SAOS em adultos e crianças. Em crianças, os principais são ronco noturno frequente, dificuldade de respirar, pausas respiratórias no sono, suor noturno excessivo e hábito de fazer xixi na cama (enurese noturna). Durante o dia, a criança pode ficar agitada, inquieta ou muito sonolenta e respirar de boca aberta. Também pode apresentar infecções repetidas de ouvido, como otites, aumento da circunferência do pescoço e obesidade no tronco", diz o médico.

Portanto, os pais e pediatras devem ficar atentos. Os casos graves ou de longa duração de síndrome de apneia obstrutiva do sono elevam o risco de complicações, como dificuldade de aprendizagem e atraso no crescimento, depressão e, em situações extremas, hipertensão pulmonar com repercussão no coração, comenta Clemax.

Para confirmar o diagnóstico, o médico poderá pedir o exame de polissonografia, que registra o sono do paciente à noite e avalia dados de padrão da respiração, as paradas respiratórias, o nível de oxigenação, a frequência cardíaca, a intensidade do ronco e até a posição no leito. O tratamento dependerá da causa. Se a SAOS for decorrente de excesso de peso ou obesidade, uma medida é a reeducação alimentar.

Nem sempre quem sofre de apneia percebe que o seu sono foi interrompido, mas há casos em que o indivíduo acorda no meio da noite sobressaltado, engasgado e com falta de ar. Isso porque, por segurança, o cérebro, sem receber oxigênio por alguns segundos, força o despertar. A apneia reduz o sono reparador (a fase REM, quando ocorrem os sonhos), responsável pela sensação de bem-estar ao acordar.