Crianças que separam qualquer novidade no cantinho do prato, cospem ou recusam a maioria dos legumes e das verduras e acabam abrindo a boca apenas para uns poucos e repetidos alimentos integram um grupo que, nos países de língua inglesa, foi batizado de picky eaters. Os comedores seletivos, como a expressão foi traduzida pelos médicos brasileiros, costumam ser identificados entre os 2 e os 8 anos de idade, mas, para o pediatra Walter Taam Filho, membro do Comitê de Nutrologia da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (Soperj) e coordenador do curso de praduação em Nutrologia da Universidade Veiga de Almeida, esse comportamento se forma bem antes disso.

"Não existe uma idade determinada para que o comportamento picky eater se manifeste. Ele é consequência da sedimentação de hábitos alimentares. Se a família não atuar, a criança pode continuar muito seletiva", explica Taam, doutor em Ciências dos Alimentos pelo Instituto de Química da UFRJ.

Segundo o médico, a melhor prevenção para esse tipo de comportamento é cuidado e paciência ao introduzir a alimentação complementar, a partir dos 6 meses de vida.

"A criança está acostumada com o leite materno. É normal que estranhe os primeiros alimentos apresentados. Nem sempre ela os aceitará nas primeiras vezes. Muitos pais desistem. Isso é um erro. É preciso oferecer um alimento novo de oito a dez vezes, pelo menos" sina o professor.  "Por outro lado, o paladar da criança precisa ser respeitado. Ela pode não gostar de certos alimentos. Mas, para ter certeza disso, é preciso ter oferecido muitas vezes e de modos diferentes e atraentes."

Outro ponto destacado pelo especialista é que o comportamento seletivo pode ser decorrente da perspicácia infantil. Ao perceber que os pais dão muito valor ao que ela come (e ao que ela não come), a criança passa a usar a recusa como estratégia de barganha. Se a mãe dá uma mamadeira porque o filho não comeu, a criança entende que, se não comer, vai receber o leite de que gosta. O mesmo vale para as sobremesas oferecidas como prêmios e para as "performances" que visam a distrair os pequenos na hora da comida:

"Os pais precisam controlar a ansiedade em relação à alimentação. A criança aproveita essa preocupação e domina a situação. Também é importante não transformar a refeição num show. Vejo alguns pais começarem com o aviãozinho e, mais tarde, nem com um circo armado dentro de casa, o filho quer comer."

Segundo Taam, de modo geral, os pequenos pacientes não apresentam alterações na curva de peso e crescimento porque acabam tendo suas necessidades nutricionais mínimas atendidas por aqueles mesmos alimentos de sempre. Mas pode haver carência de alguns nutrientes importantes. Por isso, o acompanhamento do pediatra é fundamental. O especialista será capaz ainda de distinguir o picky eater de outros dois quadros, um muito comum e outro que requer cuidados especiais.

"Aos 2 anos, é normal uma diminuição do apetite já que a velocidade de crescimento e de ganho de peso é menor em comparação ao primeiro ano de vida. Ocorre com quase todas as crianças. Também é preciso diferenciar a alimentação seletiva da fobia alimentar, em que há uma recusa quase total de alimentos. Nesses casos, existe um transtorno emocional que afeta visivelmente a nutrição e o desenvolvimento da criança" erta, explicando que apenas uma avaliação médica pode determinar se será necessária a prescrição de suplementos alimentares.

 

Dez dicas para lidar com o ky eatere você tem em casa*

1 - Respeite o apetite da criança (ou a falta dele): se a criança não está com fome, não a force a comer. Também não a obrigue a comer certos alimentos ou a raspar o prato. Isso pode desencadear uma disputa pelo poder sobre os alimentos, e seu filho pode associar o momento da refeição a uma situação de estresse. Sirva porções pequenas e dê a chance de a criança repetir.

2 - Entre na rotina: sirva lanches e refeições em torno do mesmo horário.

3 - Seja paciente com alimentos novos: crianças pequenas gostam de tocar e cheirar comidas novas. Ela pode colocar e tirar o alimento da boca antes de dar a primeira mordida. Estimule a criança a falar sobre a cor, o cheiro, a forma e a textura de um alimento novo.

4 - Pode ser divertido: prepare os alimentos em formatos los. Ocasionalmente, brinque com o horário das refeições e sirva itens do café da manhã na hora do jantar.

5 - Peça ajuda a seu filho: no mercado, peça que a criança escolha as frutas e os legumes. Em casa, ele pode ajudar a lavá-los e descascá-los, e ainda ajudar a p mesa.

6 - Seja um bom exemplo: se você comer alimentos saudáveis, as chances de seu filho também comer são maiores.

7 - Seja criativo: acrescente bris ou pimentao molho das massas, sirva os cereais matinais com cubinhos de frutas ou inclua abobrinha e cenoura nos refogados.

8 - Minimize as distrações: desligue a TV e outros eletros durante as refeições. Isso ajuda a criança a se concentrar em comer. Leve em conta que as propagandas comerciais estimulam o desejo por alimentos açucarados e poucos saudáveis.

9 - Sobremesa não é recompensa: transformar a sobremesa em prêmio significa associá-la a algo positivo, o que pode aumentar o desejo por doces. Sirva frutas ou iogurtes aps refeições e eleja apenas um ou dois dias para os doces.

10 - Não transforme sua cozinha num restaurante: não prepare pratos diferentes porque a criança não aceita a comida da família. Isso estimula a seletividade à mesa. Mesmo que a criança não coma, estimule-a a participar da refeição. Continue servindo itens saudáveis até que ela se acostume.

*Traduzido e adaptado de www.clinicamayo.org