Uma lasanha congelada pode até matar a fome, mas será que quem come um desses produtos ultraprocessados está se alimentando de verdade? Para os participantes da 5ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, a resposta é não.  Ao fim do encontro, que reuniu cerca de 2 mil representantes da sociedade civil e das três esferas de governo, um manifesto definiu o que é “comida de verdade”. O documento diz que ela é saudável tanto para o ser humano quanto para o planeta e começa pela amamentação. Na ocasião, a presidente Dilma Rousseff assinou um decreto que limita a publicidade de produtos que ‘concorrem’ com a amamentação, como fórmulas infantis, farináceos, mamadeiras e chupetas, uma vitória para os militantes da alimentação de verdade.

“A lei que a presidente sancionou já havia sido aprovada há muitos anos, mas faltava a assinatura do decreto para sua regulamentação. Esse ato tem valor prático e simbólico na proteção ao aleitamento materno exclusivo – afirma Elisabetta Racine, nutricionista e professora da Universidade de Brasília. “Com uma linguagem acessível, que alcança um público maior, o documento mostra que alimentação é um tema de toda a sociedade brasileira, não apenas de quem está na área da saúde ou da produção e comercialização de alimentos. Queremos uma alimentação de qualidade nutricional, sanitária e ambiental”.

O manifesto destaca os muitos aspectos envolvidos no ator de comer, como questões culturais e políticas. Essa complexidade fica mais evidente quando lembramos que o Brasil saiu do Mapa da Fome quase ao mesmo tempo em que os índices de sobrepeso e obesidade cruzaram a fronteira dos 50%. Para Elisabetta, porém, essa transição alimentar e nutricional não ocorreu de uma hora para outra:

“As pesquisas já vinham indicando essa mudança, que é alarmante. Para mudar esse cenário é preciso reconfigurar de maneira radical os alimentos à disposição para consumo”.

Essa reconfiguração passa pela importância que damos à alimentação em nossas vidas e isso inclui o tempo que dedicamos a preparar e a desfrutar das refeições, fator primordial para nossa saúde. Ela chama a atenção para a falta de contato das crianças com a cozinha:

“Hoje as crianças têm enorme intimidade com os tablets e nenhuma com a cozinha. É importante retomar a importância da alimentação. Precisamos encontrar um modo de incluí-la na nossa rotina, que é cada vez mais corrida”, afirma Elisabetta.

Para ler o “Manifesto da 5ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional à Sociedade Brasileira sobre Comida de Verdade no Campo e na Cidade, por Direitos e Soberania Alimentar” na íntegra, acesse o endereço eletrônico:

www.idec.org.br/pdf/copy2_of_manifesto.pdf