Recomendar que as crianças façam exercício é fácil. Difícil é conseguir, na prática, tirar os filhos do videogame ou do tablet e colocá-los para se movimentarem. Nesta entrevista, o profissional de Educação Física com doutorado em Pediatria pela Unifesp, Roberto Fernandes da Costa, poutor em Ciências do Movimento Humano e diretor executivo do projeto Avaliando Escolares, que desenvolveu uma ferramenta on-line para que as escolas possam avaliar riscos ligados à gordura corporal entre seus alunos, dá orientações a fim de que as famílias consigam tirar os pequenos da frente das telinhas.  E ele enfatiza: o exemplo e o incentivo dos pais são fundamentais.

PORTAL SAÚDE 360: De forma geral, que estratégias as famílias podem adotar para incentivar crianças e adolescentes a praticar atividades físicas?

ROBERTO  COSTA: A melhor forma de tornar crianças ativas fisicamente é a partir dos exemplos da família. Estudos apontam que, quando os pais são ativos fisicamente, há seis vezes mais chances de os filhos também o serem. Assim, é muito difícil que pais sedentários consigam tornar seus filhos ativos. Quanto a adolescentes, se não foram crianças ativas fisicamente, é ainda mais difícil sensibilizá-los para a importância de uma vida ativa. Outro fator importante é que, para a adesão à prática de exercícios físicos e sua manutenção, se deve praticar aquilo que dá prazer, portanto, a escolha deve ser pessoal, sem imposição.

PORTAL SAÚDE 360: Quais são o tempo e a frequência ideais para que crianças pratiquem exercícios?

ROBERTO COSTA: Os consensos de entidades internacionais, como o American College of Sports Medicine, recomendam que crianças e adolescentes pratiquem pelo menos 300 minutos semanais de exercícios físicos, o que equivale a 60 minutos diários, cinco vezes por semana. Além disso, é fundamental diminuir o "tempo de tela". Crianças e adolescentes têm gasto tempo demasiado em frente de alguma tela: televisão, computador, videogames e celular.

PORTAL SAÚDE 360: Para quais atividades é necessária a liberação médica?

ROBERTO COSTA: Realizar exames médicos periodicamente é fundamental para monitorar a saude e agir preventivamente. Mas, antes do início de programas de exercícios físicos, sobretudo os mais vigorosos, é importante a realização de exame médico e a avaliação no nível de aptidão física, que englobe aspectos posturais, de composição corporal, metabos e neuromotores.

PORTAL SAÚDE 360: Diversão ou competição: qual desses dois fatores costuma estimular mais as crianças e os adolescentes?

ROBERTO COSTA: As duas formas são válidas e atraentes ao pco infantojuvenil. Como falamos antes, o importante é que a atividade dê prazer ao praticante. O ser humano é, naturalmente, competitivo. Assim, atividades que promovam desafios acabam sendo mais divertidas e aumentam a aderência (à prática). Há estudos que demonstram que atividades recreativas, embora não apresentem resultados de emagrecimento tão efetivos quanto atividades mais intensas, tendem a ser mais praticadas e por mais tempo, promovendo melhores resultados a médio e longo prazos. Quando falamos em competição esportiva formal, o melhor é que isso sja incentivado depois dos 11, 12 anos de idade. Antes disso, o ideal é a realização de exercícios que estimulem o aumento do repert motor da criança e a preparação para diferentes tipos de atividades e exercícios físicos.

PORTAL SAÚDE 360: Crianças acima do peso podem ficar envergonhadas em atividades em que o corpo fique em evidência. Como driblar esse entrave?

ROBERTO COSTA: Não submetendo a criança a constrangimento. Se ela tem vergonha, não há por que fazê-la expor o corpo. Deve-se incentivá-la à prática de exercícios, mostrando a importância deles para sua saude, buscando atividades que lhe deem prazer e não causem vergonha. Com o tempo, ela aprenderá a lidar melhor com sua imagem corporal, principalmente quando os resultados começarem a aparecer.

PORTAL SAÚDE 360: O uso de jogos eletros que exigem movimentação, como o Wii, por exemplo, pode ser considerado como atividade física?

ROBERTO DA COSTA: Quando esses jogos foram lançados, acreditava-se que diminuiriam o sedentarismo associado ao uso de jogos eletros, mas não é bem isso o que acontece. Estudos recentes mostram que esses jogos so usados enquanto são novidade e acabam sendo deixados de lado rapidamente.

PORTAL SAÚDE 360: Que fatores podem contribuir para que as crianças mantenham a assiduidade e a regularidade em suas atividades? Proximidade de casa ou da escola, condições climáticas, grupo de amigos ajudam a não desistir?

ROBERTO COSTA: É claro que todos esses fatores interferem na aderência, mas, mais uma vez, devemos insistir em que a criança tende a praticar aquilo de que gosta e que lhe dá prazer, portanto, a escolha deve ser dela. O papel dos pais é incentivá-la, desde muito cedo, mostrando a importância de ser ativa fisicamente. Ser ativo junto com os filhos e praticar exercícios com eles, desde as idades mais tenras, são uma forma de lhes ensinar, pelo exemplo, que se exercitar é gostoso e faz bem à saude.

PORTAL SAÚDE 360: Se a criança diz que não quer mais ir para a atividade, como os pais devem proceder: aceitar ou insistir?

ROBERTO COSTA: O diálogo é fundamental. Se ela desiste de uma atividade, é preciso saber os motivos. Não adianta insistir em algo que não dá ou deixou de dar prazer. Então, o ideal é trocar de atividade, pois isso permitirá novas experiências. Os pais não devem se frustrar se os filhos não querem praticar a atividade que eles gostariam que praticassem. Devem incentivá-los e ajudá-los a serem ativos, mesmo que isso signifique trocar muitas vezes de atividade. O que não dá é para aceitar o sedentarismo e as infindáveis horas de tela!