“Salada? Eca!” “Não quero carne”... Muitos pais costumam ouvir essas frases com certa frequência, especialmente depois dos dois anos de idade. Mas não é preciso se desesperar nem tampouco perder a paciência nessas situações. No seu recém-lançado livro “Cozinhando com o pediatra – alimentos saudáveis e saborosos para crianças” (Benvirá), o pediatra Sérgio Spalter, do Hospital Israelita Albert Einstein, revela formas de driblar a resistência da garotada na hora das refeições e pôr alimentos nutritivos em seus pratos. Pai de Ana, Alice e Alex, ele conhece bem os desafios de alimentar os filhos de forma saudável. No livro, ele ensina receitas – com consultoria da chef Morena Leite – práticas, nutritivas e gostosas de saladas, carnes, massas e sobremesas que acabam com a pirraça à mesa. Traz ainda dicas sobre utensílios de cozinha e conservação dos alimentos. Acompanhe a entrevista abaixo:

 

OIN – Quando começou o seu interesse pelo preparo de receitas para crianças?

SÉRGIO SPALTER – Tenho uma relação com a culinária desde que era criança e via as minhas avós cozinharem. No consultório, sempre orientei os pais para o preparo de comidas saudáveis para as crianças, mas, em algum momento, percebi que seria interessante cozinhar junto para poder ficar claro o preparo desses alimentos. E comecei a dar aulas de culinária para pais, avós, tios e babás na garagem do meu consultório e foi uma experiência produtiva e interessante. Gosto de cozinhar, e depois de ter filhos percebi que essa tarefa pode se tornar um grande desafio quando se deseja aliar a alimentação saudável ao muitas vezes difícil paladar das crianças.

OIN – Na correria do dia a dia, como organizar um cardápio saudável e saboroso?

SPALTER – O ideal é planejar. Ter um horário para fazer várias porções, congelar algumas delas, elaborar bem as compras. Tenho três filhos, e cada um com seus próprios gostos, suas preferências alimentares e até diferentes maneiras de se alimentar. É importante perceber, por exemplo, se a criança prefere comidas temperadas ou menos temperadas, comidas mais doces ou salgadas, uma consistência dura ou pastosa... Afinal, é possível adaptar a comida às preferências individuais. Quando estamos apressados, acabamos empurrando a comida a nossos filhos, em vez de oferecê-la. Isso faz a criança se sentir pressionada e controlada, o que pode ser uma das causas da diminuição do apetite. Nessa rotina, é essencial que se reserve um tempo para que todos da família possam se alimentar com calma, sem pressa e sem sobressaltos.

OIN – Por que depois dos dois anos de idade as crianças ficam mais seletivas com a comida, optando sempre pelos alimentos que são de fácil digestão?

SPALTER – Não necessariamente os que são de fácil digestão, mas os que têm sabores fortes, alimentos que tenham mais açúcar, sal e gorduras. Por isso, devemos tentar perceber quais são os alimentos com qualidade que a criança gosta, as suas preferências alimentares e montar um cardápio saudável baseado nisso. “”Doutor, o meu filho não come! O que estou fazendo errado?” São frases que escuto com frequência. Há muitas maneiras de fazer as crianças se interessarem pelas refeições. Não somente fazendo receitas que agradem o paladar delas, mas, sobretudo, entendendo o que as leva a agir assim e que hábitos podemos mudar em nossa rotina familiar para que elas passem a ter prazer em comer.

 

OIN – O que atrapalha o apetite da criança?

SPALTER – O principal motivo da falta de apetite são erros na rotina alimentar. Muitas vezes, a criança não quer comer porque não lhe foi dado tempo suficiente entre uma refeição e outra para que sinta fome. Ou então porque, antes da refeição, bebeu um suco, uma água de coco, comeu biscoito ou um doce, o que acaba tirando o apetite. Às vezes, o lanche escolar acaba sendo próximo da hora do almoço e isso também pode atrapalhar. É importante que a criança coma com fome e não troque as refeições por algum outro alimento, que acaba tirando o apetite. Quando a criança come sem fome, busca alimentos “saborosos” na opinião dela, como frituras ou doces, mas não necessariamente nutritivos. Ou então seleciona o que quer e o que não quer comer e acaba tirando do prato toda e qualquer folhinha verde, para desgosto dos pais.

OIN – Quais fatores influenciam na formação do paladar da criança?

SPALTER – Eu diria principalmente a cultura alimentar dos pais e da família como um todo. O paladar leva um tempo para ser educado. A criança deve ser incentivada a experimentar novos sabores e isso deve ser instituído o mais cedo possível.

OIN – Como a sociedade deve enfrentar a epidemia da obesidade infantil?

SPALTER – Tendo mais consciência do processo inteiro da alimentação. De onde vêm os alimentos. Como eles são cultivamos. Como são distribuídos. E para onde vão as sobras. Isso significa criar uma cultura consciente de alimentação. E como consequência direta isso reduz os problemas alimentares, como a obesidade. Essa cultura ainda não existe. As escolas poderiam ser muito parceiras para criar isso, porém só a minoria delas está preocupada. O conceito de alimentação do meu livro é em parte baseado na medicina antroposófica, criada no início do século XX pelo austríaco Rudolf Steiner. Ela pode ser entendida como um conhecimento do ser humano e da natureza ao seu redor, e se aplica a praticamente todas as áreas da vida humana. A alimentação tem relação direta com nossa saúde e nos coloca em contato com a natureza que nos envolve – plantas e animais – e modifica nossas relações socioculturais. O entendimento desses vários aspectos é importante para que o ato de se alimentar não seja somente um hábito corriqueiro, mas traga um sentido mais profundo e nos insira integralmente no local em que vivemos.

 

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<http://cozinhandocomdrspalter.blogspot.com.br/ ou http://www.drspalter.com/>.