“O meu filho não come”. Essa é a principal queixa dos pais de crianças de 1 a 8 anos aos pediatras. A falta de apetite na infância pode está relacionada a diversos fatores. A respeito desse tema, conversamos com o pediatra Alexandre Alves Pereira Woolf de Oliveira para saber quando a inapetência deve ser motivo de preocupação. Confira a entrevista a seguir:

 

OIN Quais as causas de falta de apetite na infância?

ALEXANDRE WOOLF DE OLIVEIRA – A principal causa é a interpretação equivocada dos pais, que têm uma expectativa de alimentação acima das necessidades da criança. Além disso, deve-se pensar em situações que podem ser identificadas ou não numa primeira consulta, como a presença de doenças crônicas, seletividade relacionada a aspectos sensoriais dos alimentos (cor, textura, odor, sabor, consistência) e causas psicológicas (fobias alimentares e conflitos pessoais). Crianças maiores costumam ser bem ativas e têm menor interesse pelos alimentos. Portanto, é essencial avaliar bem a história clínica e fazer o exame físico completo, com tranquilidade e tempo para que se possa entender a rotina da família.

 

OIN É verdade que a fase sensível para o apetite da criança começa a partir dos 2 anos?

WOOLF – Ao desenvolver habilidades motoras e intelectuais mais complexas, a criança apresenta maior autonomia (inclusive para alimentar-se) e aumenta seu interesse pelo ambiente. Esse comportamento inicia-se no segundo ano de idade, quando a velocidade de crescimento diminui, havendo, portanto, um menor ganho de peso e comprimento, fato esperado. Essa combinação de fatores promove uma diminuição da quantidade de alimentos requeridos e na atitude comum de selecionar alguns alimentos, o que pode causar preocupação por parte da família.

 

OIN – O que levar em conta na falta de apetite na infância?

WOOLF – Quando o pediatra recebe em seu consultório uma criança com falta de apetite, deve investigar se há doenças agudas ou crônicas. Se forem descartadas, o importante é saber se a falta de apetite da criança está reduzindo a ingestão adequada de nutrientes para a sua faixa etária. Na consulta, o pediatra realiza uma avaliação física completa – incluindo as medidas da criança – e o recordatório alimentar (o que a criança come). Às vezes são necessários exames complementares. Essa avaliação confirma a inadequação alimentar ou a interpretação equivocada. Quando se conclui que a criança está bem e não corre riscos, usamos as tabelas e os gráficos de peso e comprimento ou estatura para acalmar os pais e mostrar que a criança está bem de saúde, se desenvolvendo.

 

OIN – Quais são as orientações aos pais com esse tipo de queixa?

WOOLF – De maneira geral: manter a rotina da criança, evitar que ela belisque entre horários e demonstrar neutralidade na hora da alimentação (não demonstrar ansiedade, insatisfação ou valorizar demais as preferências da criança ou as recusas), evitando-se atitudes coercitivas, castigos, prêmios, distrações e tempo excessivo para a alimentação. Os pais devem dar o bom exemplo na alimentação. Também é interessante permitir que a criança participe da compra e do preparo dos alimentos, com supervisão do adulto e com segurança. Os pais devem entender que há uma fase em que a criança come menos e tende a selecionar alguns alimentos. E não se deve tornar o ambiente conflituoso com riscos de amplificação do quadro. O mais importante é o acompanhamento com o pediatra, profissional que pode antecipar tais situações e aconselhar os pais, evitando conflitos no ambiente familiar, uma vez que a dificuldade alimentar, mesmo que mal interpretada, frequentemente gera grande ansiedade.

 

OIN – Como diferenciar a inapetência em crianças saudáveis dos picky eaters, as crianças que selecionam alimentos e comem pouco?

WOOLF – As crianças seletivas têm alguma dificuldade relacionada à característica do alimento, tais como cor, textura, sabor, odor e consistência. Esta seletividade pode ser simples ou bem ampla, a ponto de causar problemas nutricionais. Frequentemente, elas também demonstram outras dificuldades no cotidiano, rejeitando contato com massa de modelar e determinados tecidos, pisar em areia ou grama. Além das recomendações gerais já descritas, estas crianças devem ter oportunidade de conhecer novos alimentos, oferecendo-os gradativamente, de forma neutra, e repetidamente. Porém, pode haver um quadro grave de dificuldade de aceitação destes (neofobia), sendo necessária a atuação de uma equipe multidisciplinar, com médico nutrólogo, psicólogo, nutricionista, terapeuta ocupacional e fonoaudiólogo. Independentemente da classificação, se as crianças apresentarem déficits ou riscos nutricionais, o pediatra poderá receitar suplementos para recuperação nutricional ou adequação de oferta de nutrientes.