Uma pesquisa do IBOPE Inteligência, encomendada pela Sociedade Vegetariana Brasileira e publicada em abril de 2018, atesta que o número de brasileiros que se declaram vegetarianos chegou a 14%. Nas regiões metropolitanas, o percentual alcança 16% o dobro de 2012. São quase 30 milhões em todo o país. Se, por um lado, a notícia poderia ser comemorada, por supor escolhas mais saudáveis e conscientes na hora de se alimentar, na prática, pode ser uma “pegadinha”. Isso porque o aumento do interesse público pelas alternativas de origem vegetal já chamou a atenção das marcas e dos supermercados, cujas prateleiras estão cheias de opções sem ingredientes de origem animal, mas ultraprocessados e artificiais. Ou seja: em busca de uma alimentação mais saudável, as pessoas podem estar consumindo justamente o oposto.

Em entrevista ao jornal espanhol El País, a dietética-nutricionista Laura Martinez Arguelles fala sobre o assunto e explica que o fato de um produto ter o selo de vegano informa apenas sobre a origem dos seus ingredientes. “Não diz absolutamente nada sobre sua salubridade.” E alerta: “A indústria alimentícia está aproveitando a conotação saudável que envolve o termo vegano para nos vender ingredientes mais baratos e menos saudáveis”.

A nutricionista Fernanda Mattos, com experiência em obesidade e doutorado em Ciências Nutricionais pela UFRJ, afirma que a opção por consumir ou não alimentos de origem animal diz respeito a uma filosofia de vida. E ela assegura que, independentemente dessa escolha, é possível ter uma alimentação balanceada e que forneça os elementos necessários para uma boa saúde. Porém, para a nutricionista, é preciso desmistificar a ideia de que alimentos que originam de animais são menos saudáveis.

“Eles contêm proteínas de alto valor biológico (contêm os aminoácidos essenciais ao corpo), gorduras boas, vitaminas e minerais, que, se consumidos de forma balanceada e combinados com outros grupos alimentares (frutas, cereais, leguminosas, por exemplo), fazem parte de uma alimentação muito saudável”, esclarece.

E complementa: “Tanto produtos de origem animal ou vegetal quando são industrializados, mais particularmente processados e ultraprocesados, não são as escolhas mais saudáveis. Se a pessoa optar por comer mais vegetais todos in natura, aí sim, é muito mais saudável”. “Não adianta nada ser vegetariano e consumir somente massas, pães, arroz, biscoitos etc.”, enfatiza

“Vejo muitas pessoas que deixam de comer carne, mas passam a comer somente massas, queijos, molhos cremosos e utilizam frituras em excesso e quase nada de vegetais, o que distancia muito da proposta do vegetarianismo”, conta a nutricionista. “Sendo assim, o consumo de produtos veganos processados e ultraprocessados não é a melhor escolha, uma vez que em sua grande maioria utilizam matéria-prima de baixa qualidade e muitos aditivos alimentares que são nocivos à saúde humana”, finaliza.

 

Veja como evitar as armadilhas da alimentação vegetariana

Leia os rótulos – Na lista de ingredientes, evite produtos que contenham muito açúcar, sal, conservantes, acidulantes, aromatizantes e nomes que você desconhece. Fique atento às dicas do Conselho Federal de Nutricionistas para ler os rótulos de produtos industrializados em:

 

<http://www.cfn.org.br/index.php/saiba-como-ler-os-rotulos-de-alimentos-industrializados/>.

 

 

Seja crítico com a publicidade – Não se deixe levar pelo que diz a capa do produto.

 

Consuma alimentos naturais – Diminua o consumo de produtos industrializados. Lembre-se de descascar mais e desembalar menos.

 

Evite as frituras – O mesmo vale para os produtos que levam muita gordura ou farinha em sua composição. Prefira comer comida de verdade, ou seja, alimentos que você identifica na natureza.

 

Observe um exemplo de cardápio vegano criado por Laura Martinez Arguelles para o El País e baseado em produtos ultraprocessados:

  • Café da manhã: bebida açucarada de soja batida com cacau adoçado e um croissant vegano.
  • No meio da manhã: refrigerante de cola e um sanduíche de pão de forma com mortadela vegana e margarina.
  • Aperitivo: uma cerveja e amendoins fritos com sal.
  • Almoço: arroz branco com tomate refogado e salsichas veganas. Na sobremesa, um sorvete de soja de baunilha.
  • Lanche: café com bebida vegetal adoçada e biscoitos rotulados como veganos.
  • Jantar: croquetes de espinafre veganos pré-cozidos com batatas fritas e veganese. De sobremesa, um iogurte de soja sabor frutas do bosque adoçado.
  • Aí está, um cardápio 100% vegano que seria impensável há poucos anos por falta de disponibilidade de produtos. Um cardápio no qual o mais saudável que podemos encontrar é o café, se ele não tiver uma bebida vegetal açucarada, é claro. Um cardápio em que o mais parecido com um vegetal é o tomate refogado e o espinafre dos croquetes. E a coisa mais próxima de uma fruta é a amora desenhada no pote do iogurte.

Obs.: Veganos: no conceito básico, veganismo é definido como o estilo de vida que busca excluir, na medida do possível e praticável, todas as formas de sofrimento animal, dentro do que vai ser consumido.