Comer de forma saudável é uma das regrinhas básicas para prevenir a obesidade desde a infância. E, para ficar por dentro do assunto, há quem use aplicativos de nutrição no seu dia a dia. Nas lojinhas de apps há diversas opções, inclusive específicos sobre alimentação infantil. Mas será que vale a pena seguir as orientações desses programas? Como saber se o conteúdo deles é correto e não leva o usuário a ter problemas de saúde?

Conversamos com a nutricionista Kelly Gonzaga, especialista em nutrição materno-infantil e consultora em aleitamento materno, alimentação complementar e escolar e do Conselho Regional de Nutricionistas (CRN4 RJ-ES), para responder a essas e outras questões na entrevista a seguir. Confira!

OIN – Há um grande interesse das pessoas sobre alimentação saudável. Em geral, os aplicativos, gratuitos e pagos, de nutrição são úteis?

Kelly Gonzaga – A nutrição é uma ciência respaldada em pesquisas que envolvem conhecimento epidemiológico, biológico e social. Assim, um aplicativo, por mais elaborado que seja, jamais atenderá adequadamente, no sentido de propor uma mudança significativa do padrão alimentar de um indivíduo, visto que o app não leva em conta aspectos subjetivos do ato de comer. Ele serve apenas como um meio de se informar, desde que o seu conteúdo tenha sido feito por nutricionistas.

OIN – O que considerar antes de usar um desses aplicativos?

Kelly – O mais importante é saber qual é o seu objetivo. Se o seu interesse for obter orientações sobre receitas e organização de horários para se alimentar, os apps podem ser úteis. Se você quiser baixar os apps para ajudá-lo com as suas necessidades nutricionais ou ter informação para resolver, por exemplo, uma deficiência de vitaminas ou outros nutrientes, eles não servem. Nesses casos, é preciso consultar um nutricionista.

OIN – Como saber se o conteúdo desses aplicativos é confiável, se o usuário não corre risco de ter problema de saúde?

Kelly – Não há como saber. Entretanto, você pode verificar algumas informações para ter maior segurança, como, por exemplo, se o app traz dietas que prometem resultados “milagrosos” ou o “resultado alcançado por determinada celebridade”. Isso é terrivelmente nocivo à saúde física e mental. Especialmente no caso da obesidade infantil, o CRN4 orienta que o tratamento tenha assistência nutricional individualizada; que consiste no planejamento alimentar com nutricionista, baseado nos dados clínicos, bioquímicos, antropométricos e dietéticos da criança.

OIN – Qual é a sua opinião sobre os apps de nutrição para alimentação infantil?

Kelly – Como comentei, um app de nutrição tem função apenas informativa. Não podemos negligenciar a obesidade e isso significa oferecer o acompanhamento criterioso multiprofissional. No caso de uma criança, a simples perda de peso não caracteriza ausência de risco nutricional. É na infância que formamos e desenvolvemos nossos hábitos alimentares para toda a vida. E esse é um processo que se inicia com o aleitamento materno e vai se aprimorando com a alimentação complementar e os hábitos familiares. Um app de alimentação infantil não responde a todos esses aspectos, que só podem ser analisados por profissionais qualificados, com respaldo em ciência e sapiência. Ao planejar um cardápio de uma criança, o nutricionista deverá avaliar o contexto socioambiental em que ela vive. Precisa compreender o que influencia as preferências alimentares da criança, qual é o significado que o ato de comer tem para sua vida, entre outros fatores. Portanto, a necessidade nutricional é apenas um dos fatores que compõe essa complexa consulta. E nesse ponto fica clara a limitação dos apps de nutrição, porque eles desconsideram critérios subjetivos que norteiam as escolhas alimentares de cada um. Quando montamos um prato, também somos guiados por afetos e sabores. E o plano nutricional que não leva em conta esses elementos é fadado ao fracasso e à frustração.