Comer alimentos contaminados por agrotóxicos, ou seja, venenos, pode causar graves problemas de saúde. No caso das crianças, esse risco é maior, porque é um organismo em desenvolvimento. Uma saída é optar por consumir produtos orgânicos, que já chegam às grandes cidades por preços mais em conta. Na entrevista a seguir, a engenheira agrônoma Flávia Londres fala dos perigos dos agrotóxicos nos alimentos. E veja onde comprar produtos orgânicos sem gastar muito. 

A engenheira agrônoma Flávia Londres é autora de vários estudos sobre a questão dos defensivos agrícolas em nosso país. E parte dessas pesquisas estão no livro Agrotóxicos no Brasil, um guia para ação em defesa da vida, publicado pelo governo federal. Hoje trabalhando na Secretaria Executiva da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), Flávia, mestre em Práticas em Desenvolvimento Sustentável, diz que a situação dos brasileiros em relação aos agrotóxicos só piora, graças ao relaxamento na legislação e na fiscalização, defendido pela bancada ruralista no Congresso Nacional. Por outro lado, ela nota um crescimento significativo na oferta de alimentos orgânicos nas cidades e defende que a única maneira de se evitar o risco da contaminação no longo prazo é optar por uma dieta à base de produtos orgânicos, especialmente no caso das crianças e dos adolescentes, que estão em desenvolvimento. A boa notícia é que esses produtos já estão mais em conta e existe até um mapa onde é possível encontrar feiras e cooperativas que vendem alimentos orgânicos: feirasorganicas.idec.org.br.

 

OBESIDADE INFANTL NÃO: Qual o risco para o consumidor nas cidades grandes do consumo de produtos com agrotóxicos?

FLÁVIA LONDRES: Há dois tipos de intoxicação, a crônica e a aguda. A aguda é aquela decorrente de uma exposição alta a um produto tóxico ou venenoso e que provocará efeitos intensos no curto prazo. É o caso do agricultor que está em contato com o veneno na lavoura, que aspira ou tem contato com ele na pele, e em horas ou dias ele pode passar mal. Já a intoxicação crônica é provocada pela exposição pequena a doses baixas de veneno, durante um período muito prolongado de tempo. Essa intoxicação pode se manifestar através de doenças crônicas. Mas temos uma dificuldade em determinar a relação entre causa e efeito. Se ao longo de muitos anos a pessoa desenvolver um câncer ou outra doença, temos dificuldade de associar esse efeito à exposição prolongada aos agrotóxicos. O que não significa que essa associação não possa ser feita, mas não é fácil. Quando você consome venenos combinados, diversos produtos aplicados em diferentes alimentos, isso aumenta os riscos à saúde.

 

OIN: Quais os produtos mais contaminados por agrotóxicos?

FLÁVIA: Isso varia de ano para ano, mas há produtos que regularmente são altamente contaminados. O pepino é um dos ‘campeões’, o pimentão também é muito contaminado, assim como os morangos. Mas não dá para dizer que apenas eles são perigosos, porque isso varia do local de coleta, de época do ano, de ano para ano, há muitos fatores.

 

OIN: É fácil encontrar orgânicos nas cidades?

FLÁVIA: A oferta de produtos orgânicos vem aumentando. Temos um crescimento exponencial das feiras orgânicas nas cidades, tanto nas capitais quanto nos municípios do interior, aumentando a possibilidade de compra diretamente dos produtores, ou seja, a preços mais baixos. No Rio de Janeiro, por exemplo, há 15 anos havia apenas uma feira orgânica, na Glória. Hoje existem cerca de 15 feiras orgânicas na cidade. Há até um mapa para o consumidor pode consultar, que mostra onde tem feiras orgânicas nas capitais  (feirasorganicas.idec.org.br). É uma ferramenta muito útil para o consumidor.

 

OIN: Mas o preço dos orgânicos ainda é alto, não?

FLÁVIA: Sim, é fato. Porém, isso acontece muito mais por uma relação de oferta e demanda do que por um problema de custo de produção. É um mito essa história de que o orgânico é mais caro porque produz pouco, porque é difícil de cultivar. Ele tem um custo menor, porque os agrotóxicos e demais produtos químicos são caros e as sementes geneticamente modificadas também são caras. Como o produtor orgânico tem um sistema equilibrado, ele consegue controlar melhor as pragas, e não precisa usar venenos. O que acontece é que tem muita procura por produtos orgânicos hoje, mas a oferta ainda é pouca. A tendência é a diminuição de preços à medida que tenhamos mais produtores. É importante destacar uma pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), comparando os preços dos produtos orgânicos em supermercados e nas feiras ou em grupos de consumo coletivo. A diferença é brutal: nos supermercados os orgânicos têm preços até dez vezes mais caros. Ou seja, frequentando as feiras orgânicas, você consegue um preço bem melhor.

 

OIN: E para a alimentação das crianças, qual a diferença que faz consumir menos produtos com agrotóxicos?

FLÁVIA: Para qualquer pessoa, seja adulto ou criança, consumir produtos sem agrotóxicos é mais saudável. Quando você come um produto orgânico, você está consumindo pura saúde – está recebendo todas as vitaminas e os nutrientes daquele produto. Você aproveita todas as vantagens para a saúde que aquele alimento proporciona, e não tem nenhuma contraindicação. Quando usa produtos contaminados, está ingerindo resíduos de veneno. Não é outra coisa, é veneno mesmo. Para qualquer pessoa, você tem um dano associado. No caso das crianças, esse dano é maior, porque é um organismo que está em fase de desenvolvimento, e por isso tem uma potencialização desse dano.

 

OIN: É verdade que produtos com agrotóxicos têm menos vitaminas e nutrientes?

FLÁVIA: Não é apenas o uso de agrotóxicos, é o sistema como um todo. Um dos ingredientes da agricultura convencional é a adubação sintética. Usa-se nitrogênio, fósforo e potássio, solúvel e em grande quantidade, para a nutrição das plantas. Essas plantas tendem a crescer mais rapidamente e ficar mais fortes, mas têm menos nutrientes. E têm uma seiva do ponto de vista bioquímico muito mais simples, a grosso modo com mais água e mais açúcar, e por isso estão mais predispostas a sofrer ataque de pragas, o que leva ao maior uso de agrotóxicos – uma coisa puxa a outra. Há estudos mostrando que os alimentos produzidos de maneira convencional não têm a mesma qualidade nutricional do que os alimentos orgânicos. Quando você come uma banana comprada na feira orgânica, percebe que ela tem uma consistência, um perfume e um sabor muito mais intensos do que aquela banana enorme que você compra no supermercado.

 Acesse o guia “Agrotóxicos no Brasil, um guia para ação em defesa da vida”.