Quando a chef Priscilla Moretto trabalhava com comidinhas orgânicas para bebês, percebeu que as famílias limitavam muito o cardápio das crianças – restringindo também o paladar delas – e que eram resistentes à oferta de novos sabores nos pratos dos bebês (a partir dos seis meses de vida). Dividindo suas preocupações com sua amiga Karina Almeida, publicitária e mãe de duas meninas, “surgiu a ideia de um projeto que pudesse falar sobre esse tema e, ao mesmo tempo, mostrar novas opções de alimentação, novos ingredientes e novas formas de pensar a comida das crianças”, conta a chef. Assim foi criada a Expedição Primeiro Prato, uma iniciativa que, desde 2017, explora a cultura gastronômica brasileira na introdução alimentar da criançada.

 

Com o objetivo de debater o tema da diversificação da alimentação infantil e de oferecer alternativas aos ingredientes normalmente usados, a chef Priscilla Moretto e a publicitária Karina Almeida desenvolveram o projeto Expedição Primeiro Prato. Em 2017, foram contempladas pelo ProAC Editais (um programa de incentivo à cultura do Estado de São Paulo), reuniram a equipe e começaram a visitar diferentes comunidades brasileiras a fim de conhecerem e divulgarem suas tradições gastronômicas. O projeto foi dividido em etapas e a ideia é explorar seis biomas (o conjunto dos seres vivos de uma área) brasileiros com o intuito de “resgatar sabores, saberes e ingredientes nativos, pouco conhecidos e que estão em extinção, além de difundir uma alimentação mais simples, porém mais rica em sabores”, expõe a chef.

 A “educação do gosto” é uma das preocupações que orientam a iniciativa: “Um conceito muito usado em países como França e Itália e que consiste no treinamento do paladar. A introdução alimentar nada mais é do que isso”, esclarece Priscilla. Ela também reforça a importância desses anos de desenvolvimento da criança: “O que oferecemos para os nossos pequenos ficará na memória afetiva deles para a vida toda. A exploração do alimento através dos sentidos, para além do paladar, como os cheiros e as texturas, influencia na relação que eles vão ter com os alimentos no futuro. Quanto mais familiarizados estamos com a comida, maiores as chances de nos alimentarmos bem”, conclui.

 Como funciona a Expedição? A equipe viaja para as comunidades que ainda vivem em contato com o bioma a ser investigado, colhe depoimentos de seus residentes e elabora uma série de conteúdos. A primeira visita foi à Mata Atlântica paulista, quando conversaram com indígenas da aldeia Krukutu, quilombolas do quilombo Sapatu e caiçaras da região de Ubatuba. Mães, líderes comunitários, anciãos e crianças falaram sobre sua alimentação, seus ingredientes de base, a introdução alimentar das crianças, os ingredientes nativos que usam em suas dietas e outras questões.

 

Todo o trabalho é divulgado no site e nas redes sociais da Expedição. São disponibilizados vídeos, fotos, textos, receitas milenares das comunidades visitadas e receitas da equipe, inspiradas em ingredientes ou tradições desses grupos. Também são formuladas fichas nutricionais das frutas nativas e ainda é indicado onde é possível comprar esses alimentos, em geral, difíceis de encontrar nos mercados da cidade. Tudo para que os visitantes possam conhecer alguns ingredientes nativos brasileiros e aprender a usá-los na introdução alimentar.

 “Eu crio receitas e faço as pesquisas juntamente com a Karina, e chamamos a Karine Durães, experiente nutricionista infantil, que nos dá o aval nutricional para as receitas, além de nos acompanhar nas viagens às comunidades”, explica Priscilla Moretto. Com a verba do ProAC, a Expedição deu início à sua primeira etapa, voltada para os ingredientes nativos da Mata Atlântica Paulista. “Um bioma extenso que, como outros, pode demandar mais de uma etapa para ser investigado, já que a pesquisa consiste no bioma e nas tradições de cada comunidade”, justifica Priscilla.

 Além de apresentar novas possibilidades de diversificação da introdução alimentar, nessa primeira fase, a equipe também pretende promover desconstruções e desmistificações sob a perspectiva da nutricionista Karine Durães. “Na nossa visita aos índios, ela ofereceu um olhar bem interessante sobre a teoria da higiene, por exemplo. Ela observou que, na aldeia, as crianças não têm alergia alimentar, uma realidade bem diferente da que ela acompanha todos os dias nas crianças da cidade. E acredita que isso ocorre porque as crianças vivem livres, em contato maior com a sujeira, não no sentido ruim, mas de andarem descalças, terem contato com animais, etc.”, constata a chef.

 Para as próximas etapas da Expedição Primeiro Prato, Priscilla afirma que serão necessários mais patrocinadores: “Entendemos que temos um projeto enorme nas mãos, tanto em importância quanto em possibilidades, e queremos que ele se espalhe para todos os biomas brasileiros”.

 Conheça mais sobre o projeto através do site: <https://www.primeiroprato.com.br/>.

 E aprenda a preparar receitas ancenstrais em https://www.primeiroprato.com.br/receitas