Crianças e adolescentes, assim como adultos, precisam medir sua pressão arterial com mais frequência. Recentemente, a Academia Americana de Pediatria determinou um novo critério para o diagnóstico e a avaliação de hipertensão arterial na infância, o que significou um aumento estimado na prevalência da doença entre crianças e adolescentes em 20%. As atuais diretrizes passaram a ser seguidas por pediatras de outros países, inclusive do Brasil. Conversamos com o nefrologista pediatra Arnauld Kaufman, presidente do Comitê de Nefrologia da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (Soperj), para entender o que mudou.

As recomendações atualizadas substituem as usadas desde 2004 – estabelecidas pelo Instituto Nacional do Coração, do Pulmão e do Sangue, dos Estados Unidos – e determinam os novos limites anormais de pressão arterial na infância. Com isso, crianças e adolescentes que antes não eram considerados hipertensos passam a ser. Portanto, pais e pediatras devem ficar mais atentos ao problema.

“A alteração na diretriz efetivamente reclassifica como anormal uma percentagem de pressão arterial que antes seria normal”, explicam o pediatra Atul K. Sharma, do Departamento de Pediatria e Saúde da Criança da Universidade de Manitoba, em Winnipeg (Canadá), e colegas, em artigo publicado on-line na revista científica JAMA Pediatrics.

E o doutor Kaufman alerta: “A pressão arterial deve ser medida em todas as consultas anuais em crianças com idade acima de três anos ou em cada visita em crianças obesas ou em condições de risco para hipertensão arterial sistêmica (HAS)”.

Segundo dados de 2016, a hipertensão arterial sistêmica atinge cerca de três milhões de crianças e adolescentes no Brasil e a maioria não tem diagnóstico, assegura Kaufman. “Então, esse grupo acaba se tornando adultos jovens com doenças cardiovasculares, renais entre outras”, comenta.

 

Na visão do nefrologista, as mudanças no estilo de vida da criança e de toda a família ainda são a melhor forma de prevenir o problema. “Com a prática de atividade física regularmente e o hábito de fazer uma alimentação balanceada, rica em vegetais, como verduras, legumes e frutas, grãos, e evitar comer produtos embutidos ou ricos em sódio e açúcar, bebidas açucaradas, excesso de carne vermelha e gorduras adicionadas, principalmente saturadas, há melhora na qualidade de vida de todos”, recomenda.

 

De acordo com um importante estudo, o “Bogalusa Heart Study”, realizado nos Estados Unidos, o agrupamento de fatores de risco para doença cardiovascular na infância está associado a maior chance de desenvolvimento de lesões ateroscleróticas na adolescência e no início da vida adulta.

 

Pelas novas orientações aos pediatras, no caso de crianças e adolescentes com hipertensão, são recomendadas modificações no estilo de vida (alimentação saudável, cuidado com o sono e prática de atividade física) e a aferição da pressão deve ser reavaliada após seis meses em vez de um ano, conforme é feito em crianças com resultado normal. Da mesma forma, crianças assintomáticas com níveis em estágio 1 (de acordo com o novo critério) devem ser reavaliadas em uma a duas semanas, e aquelas com níveis já no estágio 2 requerem reavaliação com mais urgência ou encaminhamento a um especialista na mesma semana.