Seus filhos buscam dietas de redução de peso na internet ou informações relacionadas ao baixo peso? Você tem observado que o comportamento dele ou dela mudou e que come cada vez menos? A indústria da moda, o cinema, o atual padrão de beleza exibido por influenciadores digitais e as demais referências ao alcance dos nossos filhos, assim como o constante bombardeio de informações voltadas para dietas e culto ao corpo, fazem com que muitos adolescentes tenham acesso a conteúdos inadequados na internet e se submetam ao mundo de Ana e Mia, termos usados na internet para incentivar à anorexia e à bulimia, dois graves trasnstornos alimentares. Mantenha-se atento a esse universo, saiba como prevenir e o que fazer caso suspeite de algo?

 

Como um adolescente se converte em Ana ou Mia?

 

Tudo a nossa volta incentiva o culto à magreza. Movidos por esses fatores, muitos adolescentes buscam informações sobre perda de peso e correm o risco de sofrer transtornos alimentares (<http://www.obesidadeinfantilnao.com.br/publicacoes/doutores-da-saude/o-tratamento-dos-transtornos-alimentares-na-infancia-e-na-adolescencia/>).

 

São numerosos os conteúdos sobre dietas na internet, facilmente acessíveis a qualquer pessoa, inclusive àquelas sem qualquer tipo de controle ou supervisão, apesar das graves consequências que isso pode causar.

 

Os conteúdos que defendem a perda de peso em tempo recorde, com conselhos extremos, são chamados de “Pró-Ana” e ”Pró-Mia” (em favor da anorexia e da bulimia, respectivamente). Essas informações, geralmente, aparecem sem restrições em portais, canais ou perfis de redes sociais e suas recomendações colocam seus seguidores em risco físico e mental.

 

É por meio dessas plataformas que o/a adolescente estabelece o primeiro contato: tornando-se íntimo e sentindo-se compreendido. Depois, ele/ela mantém esse relacionamento de forma privada por mensagens instantâneas ou pelas mídias sociais, que dependem da aprovação do “especialista no assunto”, que assume o papel de líder. Em muitas ocasiões, o/a adolescente não chega a esse conteúdo de forma premeditada, o assunto aparece mascarado em forma de jogos, fóruns ou canais de sucesso entre os adolescentes.

 

 

Identificando portais Ana e Mia

 

As primeiras fases desses transtornos alimentares podem passar despercebidas pelos pais, pelos amigos e pelos professores dos adolescentes com esses problemas. Da mesma maneira que, aos olhos de um adolescente movido pelo desejo de perder peso, essas práticas recomendadas podem parecer inocentes. Nesse sentido, os distúrbios de Ana e Mia se tornam ainda mais prejudiciais e progridem mais rapidamente do que a anorexia e a bulimia tradicionais. O contato com outras pessoas que aprovam e validam o adolescente acaba normalizando a situação.

 

Os sites na internet “Pró-Ana” e “Pró-Mia” apresentam algumas características em comum:

 

– Terminologia própria: é comum que os seguidores se reconheçam sob o pseudônimo de “príncipes” e “princesas”, falando em “purgar”/”miar” em vez de vomitar; as palavras anorexia e bulimia são camufladas pelos termos Ana e Mia; e também são usadas como código para o termo “vomitar”: “Hoje eu fiz três Mias”; além de justificarem as práticas extremas como um “estilo de vida”.

 

– Proximidade: outra forte característica é a escrita em primeira pessoa, em que o autor assume o papel de “especialista no assunto”, indicando técnicas que supostamente funcionaram para ele.

 

– Recomendações extremas: esse tipo perigoso de comunidade põe seus seguidores em risco quando recomendam: consumir gelo e alimentos muito frios; usar laxante após as refeições; pulverizar a comida com detergente antes de comê-la, para odiá-la; praticar automutilação para “se distrair da fome”; beber água com sal para induzir o vômito; enfaixar fortemente o abdômen; tomar medicamentos prescritos para doenças como a diabetes ou que exijam controle de colesterol.

 

– Tabelas de medidas: os conteúdos Ana e Mia têm base em uma série de tabelas de medidas e pesos, com valores muito distantes daqueles recomendados como saudáveis pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

 

– Motivação: esses portais monopolizam tanto a vida dos seguidores que existe uma pressão do grupo contra aqueles que tentam deixar a comunidade. Sinais de fraqueza são punidos e existe uma hierarquia: “As Anas” ficam acima das “Mias”, já que venceram a “fraqueza” de ingerir alimentos.

 

– Fotos mostrando alterações no peso: as dicas e recomendações, em geral, vêm acompanhadas de fotos em que as mudanças extremas são mostradas no estilo “antes e depois” (o que é conhecido como thinspo ou imagens inspiradoras). Isso gera empatia no espectador que acredita ser possível atingir os mesmos resultados.

 

– Pertencimento a um grupo: a comunicação nessas redes ocorre no sentido de fazer com que os seguidores se sintam parte de um grupo de apoio, em que todos têm o mesmo objetivo: emagrecer. Para se reconhecerem fora dessas redes como “príncipes” e “princesas”, usam uma pulseira no braço esquerdo: roxa, identificando-se como Mia (adeptos da Bulimia), ou vermelha, identificando-se como Ana (adeptos da anorexia).

 

Hashtags: esses conteúdos produzem hashtags (palavras-chaves) próprias, para que as buscas sejam mais eficientes. Entre as mais comuns: #Mia, #Ana, #ProAna, #ProMia, #Ed (sigla de “eating disorders” ou distúrbio alimentar), #Thinspiration (a soma de “thin” – magra/o – com “inspiration” – inspiração), #Thinspo e #Size0 (tamanho zero).

 

– Desafios: o líder, muitas vezes, desafia seus seguidores propondo: “as corridas de quilos” – redução de vários quilos em um tempo muito curto; “a folha A4” – obtenção de uma cintura mais fina do que uma folha de papel; “desafio do umbigo” – ser capaz de passar o braço através das costas e tocar o umbigo; “clavícula” – ser capaz de fazer uma espécie de colar colocando moedas na clavícula, o que exige ser extremamente magro.

 

O que podemos fazer?

 

– Como medida preventiva, é importante reforçar a autoestima dos nossos filhos e filhas, transmitindo valores relacionados à subjetividade da beleza e à aceitação de si mesmo. Também devemos ser um exemplo para eles nesse aspecto.

 

– É muito importante realizar mediação parental adequada. É quando observamos quais são os interesses dos adolescentes e que conteúdo consomem. É possível complementar esse trabalho com ferramentas de controle parental que permitem, entre outras funções, filtrar conteúdos.

 

– Se nossos filhos ou filhas são vítimas dessa prática, não devemos questioná-los: é evidente que o problema os superou. É preciso manter um clima de confiança que os ajudem a ser honestos conosco, para então abordarem essas más práticas, encontrando soluções para a situação, como recorrer à ajuda de um profissional.

 

– Estimular o desenvolvimento da capacidade crítica: a habilidade de contrastar informações é essencial; estimule a busca de fontes confiáveis ou o recurso a adultos, em quem o adolescente confie diante de dúvidas ou preocupações e antes de assumir informações ou ideias como verdadeiras ou inofensivas.

 

– As escolas devem promover atividades esportivas e hábitos alimentares saudáveis, além de trabalhar a tolerância, a igualdade e o respeito, independentemente das diferenças físicas entre as pessoas.

 

– Nas mídias sociais, combata, de forma eficiente e rápida, a proliferação de conteúdos inapropriados. Gerar argumentos contrários, que permitam ao público refletir a partir de outro ponto de vista, e relatar a existência das comunidades nas próprias plataformas também são ações que ajudam.

 

 

No Rio de Janeiro há instituições públicas que oferecem atendimento em casos de transtornos alimentares. Se necessário, procure o Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (IEDE), endereço eletrônico: <http://www.iede.rj.gov.br/>, ou o Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente NESSA/UERJ, endereço eletrônico: <http://www.nesa.uerj.br/>.

 

Leia também o Manual “Saúde de Crianças e Adolescentes na Era Digital” (da Sociedade Brasileira de Pediatria): <http://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/2016/11/19166d-MOrient-Saude-Crian-e-Adolesc.pdf>.

 

Fontes: <https://www.is4k.es/blog/ana-y-mia-la-anorexia-y-la-bulimia-en-internet (em espanhol),  https://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u66410.shtml e http://www.obesidadeinfantilnao.com.br/publicacoes/dicas/como-evitar-a-preocupacao-com-a-aparencia-na-infancia/>.