A associação entre hipertensão arterial e obesidade infantil não é novidade e tem sido reforçada em múltiplos estudos. De acordo com a literatura médica, o sobrepeso na infância é considerado o principal fator de risco para a elevação da pressão arterial em crianças e adolescentes, já que esse grupo possui de duas a quatro vezes mais chances de desenvolver hipertensão arterial se comparado a uma população infantil com peso adequado.

A hipertensão infantil pode ser dividida em dois grupos: a primária ─ sem causa bem definida, mas associada ao histórico familiar e a um quadro de obesidade ─ e a secundária ─ menos comum, normalmente decorrente de alterações renais e renovasculares.

Dessa forma, percebemos que o aumento da prevalência de obesidade na criança e no adolescente deslocou a manifestação da hipertensão primária, tradicionalmente encontrada no adulto, para a faixa etária pediátrica. Comparando valores de pressão arterial obtidos na população infantil americana, de 8 a 17 anos, em 1988-94 e em 1999-2000, percebemos que a pressão sistólica elevou-se em 1,4 mmHg, e a pressão diastólica, em 3,3 mmHg. Esse incremento é parcialmente atribuído ao ganho de peso da população infantil nesse período.

Crianças com valores mais elevados de pressão arterial tendem a manter essa tendência ao longo do processo de crescimento e na vida adulta, ou seja, poderão se tornar pais hipertensos e, por consequência, reforçar o fator genético como desencadeador da doença em seus filhos. Em uma pesquisa realizada em Iowa, Estados Unidos, foram avaliadas 2.445 crianças e adolescentes entre 7 a 18 anos. Lauer e Cols, autores da pesquisa, verificaram que a pressão arterial do adulto tem relação com a pressão arterial da criança, com seu peso e com o ganho no índice de massa corpórea observado entre a infância e a idade adulta. Os estudos demonstraram que crianças com antecedentes familiares hipertensos apresentam níveis pressóricos mais elevados do que aqueles sem familiares hipertensos.

Assim como os adultos, crianças hipertensas, em geral, não apresentam sintomas, o que reforça a importância de medidas rotineiras da pressão arterial durante as avaliações médicas. Deve-se medir a pressão ao menos uma vez nos primeiros três anos e, a partir dessa etapa, uma checagem anual é suficiente.

Em longo prazo, a hipertensão arterial pode ocasionar consequências devastadoras como infarto do miocárdio, derrame cerebral e insuficiência renal. Portanto, a prevenção de seu desenvolvimento na infância e na adolescência deve envolver um esforço social conjunto para promoção das boas práticas de saúde e um combate agressivo à epidemia de obesidade e inatividade física que assola a população humana desde a última década do século XX.

*Vera H Koch é professora livre-docente do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da USP, médica da unidade de nefrologia pediátrica I Criança (HCFMUSP) e associada da Sociedade Brasileira de Hipertensão.