A Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente garantem: somos todos - família, Estado, escola e sociedade - responsáveis pelo cuidado com as crianças. Como segundo principal espaço de convivência infantil, logo após a própria casa, a escola tem papel decisivo na prevenção da epidemia de obesidade num país onde uma em cada três crianças de 5 a 9 anos está acima do peso, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para a advogada Ekaterine Karageorgiadis, do Instituto Alana, dedicado às causas da infância, as escolas têm que se preocupar com este tema.

“Os educadores precisam ter um olhar sensível para crianças e adolescentes que apresentem sinais ou sintomas de sobrepeso, obesidade e outros distúrbios alimentares”, diz ela, que integra o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

Por isso, o primeiro ponto para o qual ela chama a atenção é o grande número de ações publicitárias dentro das escolas, algumas diretas e outras menos explícitas: “O espaço escolar deve ser livre de publicidade, seja na cantina, seja em feiras ou visitas de empresas em que os alunos recebem brindes ou são estimulados a comprar algum tipo de produto”. Essa recomendação do Ministério da Educação foi enviada a todas as secretarias municipais e estaduais de Educação depois da publicação da Resolução 163 de 2014 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). De acordo com a advogada, a escola deve proteger as crianças dos abusos da propaganda, quando se aproveita do julgamento ainda deficiente nesse estágio de desenvolvimento: “A indústria coloca a culpa no indivíduo, mas o estimula excessivamente para que consuma mais do que precisa”.

Ainda em relação à alimentação, as escolas também podem contribuir para ações de educação alimentar e nutricional sem que isso tenha que fazer parte de um currículo formal: “Não precisa haver uma aula de nutrição, mas esses valores podem ser passados através de outras práticas, como cuidado com os produtos à venda na cantina e uso de hortas e refeitórios como espaços educativos”.

Outro aspecto que merece a atenção das redes de ensino pública e privada é a prática de atividade física também fora do horário das aulas de Educação Física. “No Instituto Alana, recebemos muitas denúncias de que as crianças são impedidas de correr nos recreios. Elas precisam brincar, correr, pular. Para isso, são necessários espaços adequados, como as caixas de areias para crianças pequenas e quadras poliesportivas para os maiores”.

Para a advogada, uma abordagem transdisciplinar pode contribuir para que esse desafio seja superado: “Diante da carga horária obrigatória, é um desafio ampliar a Educação Física sem prejudicar as outras disciplinas. É preciso pensar, então, em aulas em que as crianças trabalhem os conteúdos se movimentando mais - por exemplo, levando a aula de Matemática para o pátio”.